domingo, dezembro 31, 2006
"Quem quer ser actual já está ultrapassado"
«Sucedeu por aquela altura que Jesus atravessava umas searas com os seus discípulos. Era sábado, o dia de repouso judaico, e como os discípulos sentiam fome, começaram a partir espigas de trigo e a comer o grão. Mas alguns fariseus que os viram fazer isto protestaram: Os teus discípulos estão a ir contra a lei, colhendo no dia de sábado!

Mas Jesus disse-lhes: Nunca leram o que o rei David fez quando ele e os companheiros estavam com fome? Entrou no santuário e todos eles comeram o pão sagrado, coisa que só os sacerdotes podiam fazer. Também isto era contra a lei.

E nunca leram na lei de Moisés que os sacerdotes de serviço no santuário podiam trabalhar no sábado? Pois aqui está um que é maior do que o santuário!

Mas se conhecessem o que quer dizer esta passagem das Escrituras: 'Mais do que as vossos sacrifícios, quero provas da vossa bondade , não teriam condenado quem não tem culpa. Porque eu, o Filho do Homem, sou Senhor do próprio sábado.

Depois foi para a sinagoga, e viu ali um homem com uma das mãos aleijada. Os fariseus perguntaram-lhe: A lei permite trabalhar fazendo curas no dia de sábado? (Esperavam, é claro, que ele respondesse Sim, para desta forma poderem acusá-lo.)

A sua resposta foi: Se um de vocês tivesse uma única ovelha e no sábado ela caísse num poço, não trabalhariam para a salvar, naquele dia? Quanto mais não vale uma pessoa do que uma ovelha! Evidentemente que é justo fazer bem num sábado.

E, voltando-se para o homem: Estende o braço. Quando ele o fez, a mão doente ficou igual à sã!»

[Mateus, 12, 1-13 (nesta versão)]

Miguel Marujo
posted by @ 1:08 da tarde   9 comments
"Quem quer ser actual já está ultrapassado" (caso prático)*


[* - sim, repito-me, já aqui o tinha postado noutra versão. Mas fica sempre bem, para nos rirmos. E o riso ajuda ao debate. Um bom ano para todos.]

Miguel Marujo
posted by @ 1:04 da tarde   1 comments
sábado, dezembro 30, 2006
É costume opor às morais do sentimento as morais da razão.
Depois de haver demonstrado que a sensibilidade é particular e a razão é universal, somos facilmente induzidos a eliminar da moralidade o sentimento e a fundar a ética na obrigação e no dever.
(...)
Notemos antes de mais, que o sentimento não se confunde com o prazer, nem com a emoção, nem com a paixão.
Considerado em si mesmo, para nos servirmos da fórmula de Pradines, é uma afecção-regra.
“Os meus sentimentos” dizia Pierre Janet, “são reguladores da acção, isto é, reacções a uma situação dada… mas reacções organizadas, úteis”.
(...)
Ter um sentimento moral elevado é possuir uma regra de acção perfeitamente adequada.
Por isso não devemos considerar a afectividade apenas uma espécie de interioridade fervente ou um diálogo íntimo consigo mesmo.
A afectividade liga-se à acção de que é regra, ao objecto a que nos assimila.Não é certo que o sentimento seja particular e a razão universal, a ponto de sermos obrigados a opô-los, nem é igualmente certo que a moralidade seja, acima de tudo, o triunfo da razão sobre o sentimento (como pretendia Kant, digo eu).
(...)
Se muitas vezes se opõem, o sentimento e a razão também muitas vezes se conciliam e são, de igual modo, factores de unidade (mútua potenciação, digo eu).
Malebranche distinguia duas espécies de conhecimento:
- O conhecimento por entendimento ou por ideias, que nos revela a essência das coisas sem nada nos dizer da sua existência.
- o conhecimento da consciência ou por sentimento, que nos dá a conhecer a existência do eu, mas não a sua essência.
Conhecemos por exemplo, o mundo exterior através da ideia – podemos fazer a ciência dele, sem contudo sabermos se existe ou não: a existência do Mundo não a conhecemos senão pela Fé.
(...)
Temos um sentimento interior da nossa alma, e isso significa que não podemos duvidar da sua existência, mas sem a ideia dela não possuímos a seu respeito nenhum conhecimento científico: ficamos certos da sua existência, mas ignoramos a sua natureza.
(...)
A opinião (...) é individual; varia com cada indivíduo e jamais atinge o real; podemos portanto duvidar sempre de uma opinião.
O sentimento, pelo contrário, é ligação, põe-nos em contacto com o objecto.
(…)
Ter o sentimento de uma coisa é estar ligado a ela, não poder pô-la em dúvida, fazer corpo com ela.
A opinião tem sempre carácter individual, o sentimento tem sempre carácter social.
A opinião dispersa, o sentimento congrega.
Por isso a Fé em Deus não deve apoiar-se em provas, mas no sentimento – ou consentimento – universal.
E por consequencia “Provar a existência de Deus é destruir a Fé n’Ele” escreve Bonald.

Sacado e um pouco alterado de Jean Lacroix, Les sentiments et la vie morale, P.U.F. 1961

O sentimento é um indicador do nível de ligação existente entre a realidade quantificável (Ciência) e a realidade qualificável (Mística).
cbs
posted by @ 8:07 da tarde   0 comments
Isto não é bem uma resposta mas penso que se apropria
"Quem quer ser actual já está ultrapassado" dizia Ionesco.

Tiago Cavaco
posted by @ 5:25 da tarde   0 comments
Árduas tarefas
O desempregado até prova em contrário é um chulo. Não faz nenhum, encosta-se no remanso da televisão ou no balcão da taberna, a beberricar o dinheirinho dos contribuintes que todos os dias se levantam e vão para o emprego, das nove às nove que o patrão exige muita produtividade.

O suspeito com termo de identidade e residência até prova em contrário é criminoso, foi ele e mais ninguém que assaltou a loja, de certeza, é preto o gajo! ó sô polícia leve esse gatuno, não há mais nada a dizer.

Eu até prova em contrário sou a ovelha tresmalhada. Afinal, a árdua tarefa que me cabe é inexplicável. Ou então não. Julgava eu que andava aqui a explicar factos, argumentos, e não meras adjectivações sobre as posições dos outros, questionamentos sobre a minha fidelidade (ou sobre a minha fé, já agora: no fundo, no fundo, serei um perigoso ateu travestido de católico progressista que está do lado errado da Segunda Circular, numa insidiosa piada futebolística).

Passe a caricatura, Tiago. Mas achei que, ao exagero do título do teu post e do tom quase inquisidor do texto, merecia caricaturar antes de dizer de mim, antes da minha árdua tarefa. É isto mesmo: aceitar a alteridade e viver o diálogo correspondem, para mim, em termos absolutos à experiência cristã, de encontro com os outros, com os publicanos e pecadores, com os fariseus e samaritanos. Nos comentários a afirmações da Zazie, nos posts da polémica, escrevi e mantenho, sem grandes formulações: "não há hierarquia moral ou autoral para ditar «uma directiva». Os dogmas são poucos e importantes e de outra ordem, de outra grandeza, não me atrapalho com estas «directivas» menores, acerca do aborto ou de outras. Agora dizer que «uma directiva da hierarquia católica acerca do aborto não é trabalho de campo dos leigos» é negar o ser-se cristão (para mim, para muitos, não quero ofender outros aqui da casa). O cristão mete as mãos na massa, trabalha-a, cresce com ela, vive nela. Não há galhos quando se é. [...] A minha condição de leigo (laico, como lhe chamam) é a de alguém que prefere o "alto contraste" no que merece o contraste: por que carga de água procurar o entendimento com os outros é entrar nas "águas lamacentas"?! Isto separa-me radicalmente das visões separatistas de muitos cristãos: eu estou no mundo, sou do mundo, não vivo fora dele, enclausurado numa redoma a que chamo Igreja, e onde tudo o que seja possibilidade de entendimento com o que está de fora é infecção. As minhas águas fundem-se como as do rio e do mar, sem lamas, sem vómitos."

Talvez falte aqui grande argumentação teológica, ou citação versicular, mas para mim a minha fidelidade é deste tempo.

Miguel Marujo
posted by @ 2:28 da tarde   1 comments
Ó Miguel
Cabe-te a ti a árdua tarefa de defender que a tua posição corresponde em termos absolutos à "aceiteitação da alteridade" e à "vivência do diálogo". Depois cabe-te a árdua tarefa de justificar por que razão é que ser a favor da "aceiteitação da alteridade" e da "vivência do diálogo" corresponde em termos absolutos a experiência cristã.
Não coloco de parte a possibilidade de teres razão sobre mim mas por enquanto não só não estou convencido como acho que tens um longo caminho pela frente pelos desafios do primeiro parágrafo.
Eu e os das pedras ansiamos ser esclarecidos pelos teus amorosos esclarecimentos.

P.S. Ó Zazie, o template voltará. Precisamos só de o retocar (estava já sem linques, sem a maravilhosa frase "Um Blogue de Protestantes e Católicos" e afins).

Tiago Cavaco
posted by @ 1:46 da tarde   0 comments
A minha verdade é melhor que a tua
Dos "mais-ou-menos" aos "razoáveis" quem de nós discorda merece tudo: a jactância da escrita (do vómito?) revela a incapacidade de aceitar a alteridade, de viver em diálogo, mesmo que no confronto das ideias estas se façam de tensões. Preferimos antes o apodo do adjectivo fácil, sem cuidar de cuidar. A primeira pedra foi atirada.

Miguel Marujo
posted by @ 3:22 da manhã   4 comments
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Atropelados
Estou a ver que as minhas comunhões com o Miguel se limitam às mulheres (o que já não é comungar sobre pouco). Deixem-me acusá-lo do modo mais altissonante possível.
O post "Hemenêutica emética" já vai onde quero (desconhecendo se com esse propósito e quem o escreveu, embora aposte que seja o Sami - Samuel Úria para os católicos). O problema capital do Miguel é o da sua fidelidade. O Miguel mais a Ana Berta Sousa, o José Manuel Pureza, a Marta Parada e a Paula Abreu querem ser razoáveis antes de ser cristãos (doença de muitos outros cristãos, no nosso país sobretudo católicos). Há sempre muitos mas, muitas contrapartidas, muito erotismo desejado com os não-da-fé, muito progressismo nebuloso. No final, desconhecemos se lemos um católico ou um vulgar sindicalista.
O Carlos Cunha já respondeu bem na caixa de comentários (eu embirro muito com o esquerdismo do CC mas reconheço-me no seu fundamentalismo ginasticado). Deixem-me apenas frisar uma ou outra coisinha.
A verdadeira questão que subjaz nesta conversa do aborto tem a ver com o sexo comover mais as pessoas que a ética da procriação. A discussão começa sempre com o acto do prazer consumado: esse sim permanece sagrado, intocável, indiscutível. Temos nós o direito de meter-nos na alcofa da população? O cristianismo pensa que sim (assim como qualquer religião respeitável ou até mesmo o marxismo). Hoje só se gasta a saliva depois do sémen derramado. Na minha perspectiva, poderíamos sonhar que outro mundo é possível e que nem sempre os escrotos têm de andar vazios. Mas isto já é pedir muito. A cristãos e a todos os outros.
Que espaço fica? O da segunda circular que separa o cartaz do "com os meus impostos não" do "vamos acabar com a humilhação". Entre as faixas de rodagem dá ainda para o Miguel, a Ana Berta Sousa, o José Manuel Pureza, a Marta Parada e a Paula Abreu atravessarem, calculando as hipóteses de qual dos sentidos terá mais probabilidade de os atropelar.

Tiago Cavaco
posted by @ 7:33 da tarde   14 comments
Palco
A grande diferença entre protestantes e católicos está na vaidade. Não me imagino a comentar os posts dos outros trentistas no recato da caixa de comentários. Para isso entretinha-me a escrever cartas aos jornais, não a manter um blogue. Afinal, sabemos que a discórdia de um protestante não pode acabar na mansidão da consciência. Tem de haver uma porta de uma igreja onde se pespegue com a nossa idignação, tem de haver público para a nossa divergência pessoal.
Mais que um púlpito, os protestantes precisam de um palco.

Tiago Cavaco
posted by @ 7:22 da tarde   1 comments
Pele temporária
Não levem a mal mas é só enquanto não se põe o template como manda o figurino.

Tiago Cavaco
posted by @ 7:15 da tarde   1 comments
Hermenêutica emética
Se não somos frios nem quentes vamos ser vomitados. A inerrância dificilmente sairá beliscada se eu assegurar que os mornos não vão ser expelidos numa pasta semi-digerida de cheiro azedo. Mas se discordo deste bolsar literal, nada me contraria o seguinte: entre apegados, desapegados e mais-ou-menos, é dos últimos que Deus se enfada. Se não leva os dedos à garganta pelo menos torce o nariz.
Aquela conversa das zonas cinzentas para não ser tudo a preto e branco é um enjoo. Vomitemos irmãos.
Yin-Yang. Equilíbrio cósmico. Canal Infinito. Vomitemos irmãos.
O problema é que os mais-ou-menos são mais-que-muitos. E o desprezível é que, à cautela, cedemos aos pecadinhos por não serem pecadões, Deus nos livre! Só que os pecadões saem pela culatra, sem piadas fisiológicas. Pecadinhos saem pela boca numa pasta semi-digerida de cheiro azedo, fisiologia ao barulho, inerrância por beliscar.
Não vim para dizer grande coisa, nem intento ser polémico. Esse é o problema, a falta de polémica. Ninguém discorda que o mundo precisa de Jesus. Ninguém concorda que o mundo precisa de uma igual dose de diabo - o que é conveniente para não se enegrecer o cinzentinho dos fogões a meio-gás, o meio-jesus com que se aquecem as panelas dos petiscos da consoada. Bacalhau morno. Vomitemos irmãos.
Tudo se resume aos pratos de peixe. O Verbo fez-se carne e anda aí muita gente a fazer-se ao bife.

Samuel Úria
posted by @ 1:57 da manhã   1 comments
[Para espevitar] A interrupção voluntária do diálogo
[Nota prévia: o Público trouxe no dia 21 de Dezembro um texto assinado por Ana Berta Sousa, José Manuel Pureza, Marta Parada, Paula Abreu e eu próprio, sobre o referendo sobre a despenalização do aborto. Apesar de extenso, reproduzo-o na íntegra, por os artigos de opinião do jornal não estarem acessíveis sem assinatura e por entender este texto como ponto de partida para um debate sério e franco sobre o tema. Os autores têm diferentes idades e profissões, mas no seu percurso passaram pela JEC/JUC e MCE, movimentos estudantis de Acção Católica.]


Somos católicos e assistimos, inquietos e perplexos, à reiteração de uma lógica de confronto crispado por parte de sectores da Igreja Católica – incluindo os nossos bispos – no debate suscitado pelo referendo sobre a despenalização do aborto. Frustrando as melhores expectativas criadas pelas declarações equilibradas de D. José Policarpo, a interrupção voluntária do diálogo volta a ser a linha oficial. E o radicalismo vai ao ponto de interrogar a legitimidade ao Estado democrático para legislar nesta matéria. É um mau serviço que se presta à causa de uma Igreja aberta ao mundo.

A verdade é que a despenalização do aborto não opõe crentes a não crentes. Nem adeptos da vida a adeptos da morte. Não é contraditório afirmarmo-nos convictamente «pela vida» e sermos simultaneamente favoráveis à despenalização do aborto. Porque sendo um mal, não desejável por ninguém, o recurso ao aborto não pode também ser encarado como algo simplesmente leviano e fácil. As situações em que essa alternativa se coloca são sempre dilemáticas, com um confronto intensíssimo entre valores, direitos, impossibilidades e constrangimentos, vários e poderosos, especialmente para as mulheres. Ora, mesmo quando, para quem é crente, a resposta concreta a um tal dilema possa ser tida como um pecado, manda a estima pelo pluralismo que se repudie por inteiro qualquer tutela criminal sobre juízos morais particulares, por ser contrária ao que há de mais essencial numa sociedade democrática.

Por isso, não nos revemos no carácter categórico e absoluto com que alguns defendem a vida nesta questão, dela desdenhando em situações concretas de todos os dias: a pobreza extrema é tolerada como “inevitável”, a pena de morte “eventualmente aceitável”, o racismo e a xenofobia é discurso vertido até nos altares. A Igreja Católica insiste em dar razões para ser vista como bem mais afirmativa “nesta” defesa da vida do que nos combates por outras políticas da vida como as do emprego, do ambiente, da habitação ou da segurança social. Além de que, no caso do aborto, a defesa da vida deve sempre ser formulada no plural. Estão em questão as vidas de pelo menos três pessoas e não apenas a de uma. Por isso, quando procuramos – como recomenda um raciocínio moral coerente mas simultaneamente atento à vida concreta das pessoas – estabelecer uma hierarquia de valores e de princípios, ela nem sempre é fácil ou mesmo clara e não será, seguramente, única e universal. Nem o argumento de que a vida do feto é a mais vulnerável e indefesa das que se jogam na possibilidade de uma interrupção voluntária da gravidez pode ser invocado de forma categórica e sem quaisquer dúvidas.

É de mulheres e de homens que se trata neste debate. E também aqui, o esvaziamento do discursos de muitos católicos e sectores da Igreja relativamente aos sujeitos envolvidos nos dilemas de uma gravidez omite a recorrente posição de isolamento, fragilidade ou subalternização das mulheres, para quem o problema poderá ser absoluto e incontornável, e reproduz a distância que sustenta a sobranceria e condescendência moral de muitos homens (mesmo que pais). A invocação do direito da mulher a decidir sobre o seu corpo é um argumento que, bramido isoladamente, corre o risco de reproduzir de uma outra forma a tradicional atitude de desresponsabilização de grande parte dos homens perante as dificuldades com que se confrontam as mulheres na maternidade e no cuidado de uma nova vida. A defesa da autonomia da mulher, da sua plena liberdade e adultez é indiscutível e será sempre tanto mais legítima e forte quanto reconhecer e atribuir ao homem os deveres e os direitos que ele tem na paternidade. Ignorá-lo é mais uma vez descarregar apenas sobre os ombros das mulheres a dramática responsabilidade de decidir sobre o que é verdadeiramente difícil. A Igreja tem, neste aspecto particular, uma responsabilidade maior. A suas preocupações fundamentais com a família exigem uma reflexão igualmente apurada sobre as responsabilidades conjuntas de mulheres e homens na concepção e cuidado da vida.

Infelizmente, pelas piores razões, o discurso oficial da Igreja está muito fragilizado para a defesa de abordagens à vida sexual e familiar que acautelem o recurso ao aborto. A moral sexual oficial da Igreja – e, em concreto, em matéria de contracepção – fecha todas as alternativas salvo a da castidade sacrificial. É um discurso que não contribui, de modo algum, para a defesa de uma intervenção prioritariamente preventiva, em que ao Estado fosse exigível um sistemático e eficaz serviço de aconselhamento e assistência no domínio do planeamento familiar e da vida sexual. Pelo contrário, o fechamento dos mais altos responsáveis da Igreja a uma discussão mais séria e aberta sobre a vivência concreta da sexualidade denuncia um persistente autismo, que ignora a sensibilidade, a experiência, o pensamento e a vida das mulheres e dos homens de hoje.


Em síntese, o recurso ao aborto é sempre, em última análise, motivo de um grave dilema moral. E é nessas circunstâncias de extrema dificuldade que achamos ter mais sentido a confiança dos cristãos na capacidade de discernimento de todos os seres humanos, em consciência, sobre os caminhos da vida em abundância querida por Deus para todos e para todas. Optar por uma reiteração de princípios universais, como o do respeito fundamental pela vida, confundindo-os com normas e regras de ordenação concreta das vidas é, além do mais, optar por uma posição paternalista, de imposição e vigilância normativas, e suspeitar de uma postura fraternal, de confiança e solidariedade, com os que, de forma autónoma, procuram discernir as opções mais justas. Partir para este debate com a certeza de que a despenalização do aborto é porta aberta para a sua banalização é abdicar de acreditar nas pessoas, em todas as pessoas, e na sua capacidade de fazer juízos morais difíceis. Não é essa abdicação que se espera de homens e mulheres de fé.


Miguel Marujo
posted by @ 1:35 da manhã   28 comments
Morreu?
Rúben Baptista de Oliveira
posted by @ 12:35 da manhã   0 comments
sábado, dezembro 23, 2006
What's this?


A todos os trentinos, escrevinhadores e leitores, os meus votos de bom Natal.

Miguel Marujo
posted by @ 1:51 da tarde   2 comments
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Desabafo televisivo
É interessante notar como a RTP, em tempo de festas cristãs, Natal e Páscoa, vai substituindo os filmes mais ou menos épicos sobre a vida de Cristo por histórias, apologéticas, do Papado.
Ontem foi a vez de João Paulo I.
Fiquei a saber que o “Papa do sorriso” é agora considerado uma espécie de João Baptista de João Paulo II. Segundo o filme, João Paulo I estava consciente da limitação temporal do seu reinado, iriam ser apenas 33 dias, e de que a sua função era preparar, abrir, o caminho para o seu grande sucessor. Mais. Sabia que era o Cardeal Wojtyla o Papa que iria transformar o mundo e que o bloco soviético estava, por isso, em maus lençóis.
Eu sei que a fronteira entre a tradição cultural e religiosa e a propaganda nem sempre é fácil de definir. Mas a televisão estatal deve ter nesta área um cuidado especial. Um dos princípios é não misturar o que é comum a todo o Cristianismo com a história de uma igreja em particular. O outro é, em caso de dúvida, ficar-se pelo Ben-Hur…

Pedro Leal
posted by @ 12:54 da tarde   0 comments
E não se esqueçam também desta consoada

Cinco euros de entrada com direito a prenda (Carlos, espero por ti e pela tua delegação do Vaticano).

Tiago Cavaco
posted by @ 11:56 da manhã   4 comments
Sem necessidade de fazer a folha ao Pai Natal
Sabemos que um dos truques costumeiros de qualquer movimento purificador dentro do cristianismo é colocar em dúvida a celebração das festas tradicionais. Não são apenas as carrancudas Testemunhas de Jeová que acusam a restante cristandade de se enredar encapotadamente no solstício. Há muitos evangélicos com a conversa do Anão Zangado, sempre prontos a zurzir no engano global e a bradar espumando acerca do significado do verdadeiro Natal. Esta gente irrita-me (xô, evangélicos chatinhos).
Sou a favor do excesso da festa. Comam e engordem que Jesus (ainda) só veio uma vez. Recordem-se dele e se não, ao menos abasteçam-se caloricamente que anda por aqui um frio de rachar. He's the reason for the season.
Um grande abraço a todos os trentistas. Uma consoada condigna e a ver se jantamos qualquer dia.

Tiago Cavaco
posted by @ 11:43 da manhã   9 comments
quarta-feira, dezembro 20, 2006
“Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros"
Na catequese de um dos domingos deste ano, o Cardeal Patriarca de Lisboa, entre outras coisas, escreveu: "Segundo o ensinamento de Jesus, toda a Lei de Deus se resume num único mandamento: o do amor".

Penso que a Bíblia deve ser lida à luz deste único mandamento que o Senhor nos deixou.

Esta é a única chave para a existência humana.

Com a Bíblia e esta "chave" já está meio caminho andado. O outro meio caminho é, do meu ponto de vista, como refiro aqui, a Igreja Católica, a principal ajuda interpretativa que disponho para bem utilizar a chave. É que, também como referi aqui no Trento na Língua, o orgulho é um pecado capital.

A propósito de interpretação da Bíblia, gostaria de chamar a atenção para o conto de Natal que César das Neves escreveu aqui esta semana. Contém precisamente uma excelente leitura/metáfora de um episódio bíblico sobre o papel e o lugar da economia numa sociedade. Que deve ser, do meu ponto de vista, o de ajudar à vivência dos valores cristãos em comunidade.

timshel
posted by @ 5:21 da tarde   7 comments
terça-feira, dezembro 19, 2006
Aos católicos socialistas...
Já estou como o Tiago Cavaco aqui já afirmou: acho muita graça quando os católicos citam textos das Sagradas Escrituras (especialmente estes mais liberais). Mais engraçada é a sua hermenêutica...

Assim, à guisa destes (da sua "arte interpretativa"), aqui se segue um texto, do mesmo Jesus, para que o possam seguir: "Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me." (Mateus 19:21). Ficamos à espera...

Finalizo com duas citações de Dostoievski:
"O socialismo é em primeiro lugar, uma questão ateísta, a questão da Torre de Babel construída sem Deus e sem pretender atingir os céus a partir da terra, mas para fazer descer os céus à terra.”

No fundo não receamos muito esses socialistas, anarquistas, descrentes e revolucionários. Mas, existem entre eles algumas pessoas muito especiais: são crentes e cristãs mas, ao mesmo tempo, socialistas. É a esses que mais receamos, é uma gente terrível.”

Tiago Oliveira
posted by @ 10:30 da manhã   21 comments
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Em silêncio, abandona-te ao Senhor, e põe Nele a tua esperança.
Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo os seus maus desígnios (salmos, 36-7)
cbs
posted by @ 11:07 da tarde   0 comments
Pérolas do Evangelho
Uma vez que não tenho tempo - e tempo é dinheiro (pudera... sou protestante - o São Max é capaz de ter razão) - para ler tudo o que, certamente, de tão apropriado tem sido dito/escrito sobre o tema, só me ocorrem as palavras de Jesus: "PORQUE SEMPRE TENDES OS POBRES CONVOSCO".

Tim Cavaco
posted by @ 7:33 da tarde   1 comments
Influência para as gerações vindouras
Vou ali passar dois dias com meia-dúzia de adolescentes da Igreja Baptista de Moscavide. Incutir-lhes nas cabeças muita relação pessoal com Deus. Semear-lhes nas carnes obsessões com o pecado. Carimbar-lhes nos corações a urgência da Teologia.
Certificar-me que o país não se livra dos evangélicos assim tão facilmente.

Tiago Cavaco
posted by @ 5:48 da tarde   0 comments
Ricos e pobres.
Reconheço que não entendo o que se está a debater. Ricos e pobres? Católicos e protestantes ? Opções preferenciais ? Eu, por exemplo, tenho quase constantemente uma opção preferencial por mim. O evangelho, infelizmente, não me parece que tenha, apesar de eu ter quase a certeza que Deus sabe o meu nome.

Paulo Ribeiro
posted by @ 5:05 da tarde   0 comments
sábado, dezembro 16, 2006
Meter as mãos na massa
Deixem-me passar a polémica suscitada pelo uso da expressão opção preferencial pelos pobres. Usá-la dá nisto: crispa. É bom. Mas não a uso para benefícios políticos de sacristias menores (como o fez o ministro da Defesa que invocou uma senhora de Fátima para dizer que tínhamos sido salvos das marés negras de um petroleiro). Também me escuso ao debate entre o Uganda e a Noruega, porque se os pobres só ganham nas disciplinas de meio-fundo e fundo do atletismo, os noruegueses também só nos batem no curling, uma espécie de jogo da malha com lições de como encerar o chão. Gosto dos dois desportos para estar agora a esgrimir argumentos igualmente válidos para ambos.

Mas, coloco-me do lado do Carlos. Deve ser coisa geracional. «A opção preferencial pelos pobres que a Igreja deve assumir é uma opção primordial pelos que sofrem, pelas vítimas, pelos explorados (há que não ter medo das palavras), pelos pecadores.»

E, se me perdoarem o auto-plágio, explico ao que venho quando defendo a opção preferencial pelos pobres como a radicalidade do amor de Jesus aos outros. Essa radicalidade é política, não tenho medo das palavras, não as escondo em simpatias mansas ou apaziguadoras.

A 9 de Fevereiro de 2005 [a dias de uma eleição legislativa, que atirou a direita (que, como nunca, se dizia próxima de deus - minúscula propositada! - e se reivindicava de matriz cristã, como no já citado caso "Prestige") para a oposição, depois da total bandalheira na casa do senhor], dizia eu que:

«Ao católico, cabe participar na política? Cabe. Como um dever quase sacramental. Se o templo foi tomado pelos medíocres, devemos procurar a expulsão dos vendilhões - ou pelo menos da sua mediocridade, com critérios de exigência. É mais cómodo e fácil gritar pobre país, o nosso e mantermos o apoio ao nosso clube, só porque é o nosso clube. Mas, para lá desta quase fatalidade de adepto, vale a pena ensaiar rupturas.

E que rupturas são essas?

O apelo do senhor padre lisboeta [na campanha] é um apelo habitual, quase farisaico - o de quem olha para a maçã e prefere sempre o lado mais lustroso, porque tem medo de trincar a parte mais pisada. Pede-se que não se vote naqueles que atacam a vida. Por uma vez, gostava de ouvir alguém gritar o mesmo - mas contra o ataque à vida que é a pobreza e a miséria. [...]

[...] numa altura em que o desemprego bate à porta de milhares; em que o imigrante é erradamente visto como alguém que está a mais ou apenas diferente; em que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres; em que a produtividade só é medida pelo lado do trabalhador ou que a necessidade de cortar despesas signifique despedir; em que a Saúde está entregue a uma lógica cada vez mais de clientelismo e não de assistência; em que na Educação se valorizam "rankings" que sublinham a alegada excelência de escolas privadas, escondendo o trabalho social que muitas não fazem; em que a Justiça é lenta e perniciosa para os que estão sobretudo à margem; em que o Fisco penaliza quem trabalha por conta de outrem, facilita a vida à banca e às grandes empresas e continua a permitir a evasão dos mais ricos; em que os impostos vão penalizando quem não já paga e não aqueles que deveriam pagar; em que a Segurança Social, dita na falência, sem nunca ter atingido patamares de Estado-Providência, continua a ser atacada, para cobrir défices artificiais e auxiliar seguradoras; em que as empresas de serviços públicos laboram em pretensos mercados abertos, mas mantendo situações de inegável monopólio e comprovável sobranceria face aos utentes/clientes; em que...

A lista é longa, porque é longa a lista de problemas. Mas que fazer? Remetermo-nos à sacristia e sair a horas certas para pequenas acções de caridade (esquecendo o imenso alcance da palavra na sua origem)? Ou lutarmos para que estas coisas mudem? Para que estes atentados à vida acabem?

[...] De uma vez por todas, temos de apontar o dedo daqueles que se proclamam cristãos, mas no dia-a-dia atacam os seus semelhantes, criando dificuldades aos ciganos, que roubam com o rendimento mínimo. Mais rendimentos mínimos houvesse! Ou que seguem uma política de privatizar porque o Estado é mau gestor. Acaso não foram eles os gestores da coisa pública? Os vendilhões do templo dizem-nos que é útil a sua competência, mas confiaram a Nossa Senhora o que não fizeram no ambiente. Os auto-proclamados detentores da verdade empurram-nos para o colo de questões menores, chamadas de civilização, apenas para ganhar no jogo de malícia ao balcão da cervejaria de que aquele afinal é maricas. Zelam por virtudes que não praticam, rezam quando ficam na fotografia. Tudo coisas pequenas, mas que não têm problemas de trazer à liça para laçar mais votos. [...]

Demagogia feita à maneira, apontam-me o dedo. Mas, neste tempo, há que romper discursos caridosos ou politicamente correctos ou maioritariamente consensuais. Neste tempo, a Igreja devia dizer: é preciso fazer uma verdadeira opção preferencial pelos pobres. A direita no poder desde 1979, com um interregno de seis anos de governos de Guterres, e com a agravante do descalabro dos dois últimos anos, não tem condições de se reivindicar da doutrina social da Igreja. Nem muito menos de proclamar a defesa da vida, da vida dos mais pobres.» [Fim de longa citação.]

Disse-o em Fevereiro de 2005 (e aqui acrescentei um caso prático, o do rendimento mínimo garantido, para não votar na direita). Sinto-o ainda mais, hoje. Não por estar desempregado, de uma forma nojenta e arbitrária porque o cabrão de um administrador liberalóide entendeu que sim. Porque entre os desempregados descubro que sou um privilegiado pela rede de amigos que tenho, pela família que me apoia. E pela esperança que não se fina. Mas é este mundo, em que os mais pobres são esmagados pelos mais fortes que recuso. E que leio nas palavras de Jesus como a sua opção mais radical: a defesa dos vulneráveis e fracos e frágeis e explorados e desempregados pelos teixeiraspintos e belmirosdeazevedo e paesdoamaral deste país, as bem-aventuranças sim! (que ousei torná-las próximas).

De G.K. Chesterton, aceito que «há algo de mais radical na Boa Nova dos Evangelhos - a opção preferencial por mim». Mas, apenas como pretexto para. Como início de. Para que eu saiba construir um mundo sem guerras com base na evidência da mentira, mas também com um mundo em que a pobreza será peça de museu, como estimou Muhammad Yunus. Se assim for, o reino dos Céus estará entre nós.

[Ainda sobre a política e as igrejas:
E a Universidade?
E se uma Igreja partida...]

Miguel Marujo
posted by @ 11:24 da tarde   1 comments
Ricos ou pobres

“Se um irmão ou uma irmã estiverem nus”, diz Tiago “e precisarem do alimento quotidiano e algum de vós lhes disser: ide em paz, aquecei-os e saciai-vos, sem lhes dar o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?” (Tiago 2, 15-16)

O dever de solidariedade é o mesmo, tanto para as pessoas como para os povos “é dever muito grave dos povos desenvolvidos ajudar os que estão em via de desenvolvimento (Gaudium et Spes, 86, 3)

O supérfluo dos países ricos deve pôr-se ao serviço dos países pobres.
A regra, que existia outrora em favor dos mais próximos, deve aplicar-se hoje à totalidade dos necessitados do mundo inteiro.
Aliás, serão os ricos os primeiros a beneficiar com isto.
De outro modo, a sua avareza continuada provocaria os juízos de Deus e a cólera dos pobres, com consequências imprevisíveis.
Concentradas no seu egoísmo, as civilizações actualmente florescentes lesariam os seus mais altos valores, sacrificando a vontade de ser mais ao desejo de ter.
E aplicar-se-lhes-ia a parábola do homem rico, cujas propriedades tinham produzido muito e que não sabia onde guardar a colheita “Deus disse-lhe: néscio, nesta mesma noite virão reclamar a tua alma (Lucas 12, 20)
(in Paulo VI, Populorum Progressio, 48)


A escolha de Deus não será, não é seguramente entre ricos ou pobres, mas sim entre as escolhas que cada um livremente faz... ricos ou pobres.
cbs
posted by @ 8:07 da tarde   0 comments
sexta-feira, dezembro 15, 2006
da série de "estou-me nas tintas" ou "efeminados trejeitos ecuménicos" (6) - os Teodem(ónios)
Quando li isto em diagonal pensei que os "teodem" fosse uma abreviatura para designar os "demónios de Deus". Depois fiquei mais descansado: são apenas os "democratas" da esquerda católica do governo Prodi - «Teodem» (catholiques de gauche alignés sur le Vatican).

timshel
posted by @ 5:13 da tarde   0 comments
a pequenez da agulha
E pronto. O Tiago fica todo contente quando julga arranjar um pretexto para manter uma distância higiénica com os católicos (embora o José, com a sua mania do relativismo ecuménico, se apressasse em lhe estragar a festa). E então, no uso de uma retórica digna de um teólogo alemão do Vaticano (no bom sentido), vem dizer-nos que Jesus, se disse que o bom pastor deixava as 99 ovelhas em busca da perdida, queria dizer que deixa uma mais uma mais uma mais uma (até 99), para ir buscar uma que era igual às outras. Ou quando nos relata as alegrias do pai pelo regresso do filho pródigo quer dizer que aquela é uma alegria igual à que sente todos os dias na companhia do filho que ficou. O que é bom aos olhos do Senhor é o puro e jovial individualismo: quando estiver um a falar sozinho em Meu nome, eu estarei com ele, terá pensado Jesus antes de se enganar a proferir as palavras de Mateus 18:20.
Ou o que queria dizer Tiago (o outro), com «Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?» (Tiago, 2:5); ou ainda «Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento quotidiano e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?» (Tiago, 2:15-16); ou as primeiras instruções da Igreja nascente que S. Paulo relata: «Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados. Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente a minha intenção» (Gálatas 2:9-10)? Palavras dúbias e ofensivas dos espíritos livres, demasiado complexas para um entendimento latino.

A opção preferencial pelos pobres que a Igreja deve assumir é uma opção primordial pelos que sofrem, pelas vítimas, pelos explorados (há que não ter medo das palavras), pelos pecadores. Não é a Teologia da Libertação, caro Tiago, caro José. É expressão da caritas, ou de uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja. Diz respeito à vida de cada cristão, enquanto deve ser imitação da vida de Cristo e aplica-se igualmente às nossas responsabilidades sociais e, por isso, ao nosso viver e às decisões que temos de tomar, coerentemente, acerca da propriedade e do uso dos bens (Sollicitudo Rei Socialis, n. 42; Centesimus Annus, n. 11) . Dos bens materiais (também). Do vil metal com que se compra o pão.

Mas em que é que ficamos, amigo Tiago?: «não será casual que os países com menos pobres são países desenvergonhadamente protestantes»? Ou, «se analisarmos o vigor da religião nos dois países», na Noruega precisam mais de Jesus do que no Uganda? Ou podemos concluir que nos países desavergonhadamente protestantes precisam mais de Jesus?

Carlos Cunha
posted by @ 2:58 da tarde   3 comments
A opção radical do individualista
Ora aí está. É sugerir que se vai pegar nos pobres, a menina dos olhos do catolicismo progressista e liberal, e é vê-los a pegar nas mocas de Rio Maior.
Calma, irmãos.
A Zazie espera já que defenda que a Bília faz a apologia do capitalismo liberal (eu sei que o Armagedão bloguístico da guerra do Iraque foi há pouco tempo mas não há razão para tanto frissom). Vale-me que o Miguel, calmo, revela-se mais próximo do espírito das bem-aventuranças (natural e selectivamente incensadas pelo CC dentre os muitos ditos de Jesus).
Dizer que a "a opção preferencial pelos pobres" é o que de mais radical existe na Boa Nova do Evangelho é o mesmo que dizer que a opção preferencial pelos leprosos é o que de mais radical existe na dimensão sanitária da Boa Nova do Evangelho. Basta contar os contactos de Jesus com doenças e lá estará, provavelmente destacadinha no pódium, a mycobacterium leprae bacterium. O que me leva a questionar: o que terá feito de uma parte importante da mensagem de Jesus o centro da fé de muitos cristãos? E aventuro-me a responder, com a falta de rigor histórico e excesso poético que me caracterizam.
A "opção preferencial pelos pobres" é user-friendly. Proporciona aquele agradável ricochete de eco ético com que Nietzsche tanto antipatizava.
A "opção preferencial pelos pobres" é radio-friendly. É o que nunca embaraçará a Igreja aos olhos do mundo porque o trabalho é feito, é feito em quantidade, e é feito em qualidade.
A "opção preferencial pelos pobres" é ideologically-friendly. É a única maneira de juntar à mesma mesa uma drag queen, um sacerdote cristão e o neto de Wittgenstein. Todos sairão amigos, acabados de mastigar sindicalmente o pão que deve estar em todas as mesas do planeta.
Pessoalmente não tenho problemas com quaisquer dos três aspectos levantados. Que é o mesmo que afirmar que a Igreja tem uma responsabilidade com os pobres. Mas a Igreja não se limita a esta responsabilidade com os pobres. A bem da lógica do argumento, pergunte-se também: tem-se a Igreja limitado a esta responsabilidade com os pobres? Com alguma razoabilidade, creio que sim. Por que não deve a Igreja limitar-se a esta responsabilidade com os pobres?
Porque, como diz o Luís Aguiar Santos, os da Noruega precisam tanto de Jesus como os do Uganda (até precisarão mais, se analisarmos o vigor da religião nos dois países). Porque Cristo não é o funcionário de uma ética social. Porque a redenção não é um upgrade moral e falta-me o amor cristão para acrescentar mais coisas óbvias.
Só uns apartes que a Zazie bem merece. A "falsa pobreza de uma garagem evangélica, onde depois se defende por palavras o benefício e a virtude do carcanhol na algibeira" será sempre a razão que a levará a preferir o conforto estético da sua condição de ajudadora dos pobres. O conforto que os pobres proporcionam é encontrar neles o amparo para não nos revermos nesse mesmo estado de pobreza. Ou seja, se a grande missão estiver ali materializada no cuidado com os pobres eu posso dar como resolvida a minha necessidade espiritual. O que a Zazie, como muitos outros, parece não tolerar é que os evangélicos metam Jesus em tudo. Até no bolso dos outros. Afinal, parece que há coisas mais sagradas.
Como curam os evangélicos os necessitados? Metendo-lhes Jesus pelos olhos adentro. Perguntem aos drogados do Desafio Jovem. O problema da droga resolve-se com Jesus. O problema da pobreza resolve-se com Jesus. Não será casual que os países com menos pobres são países desenvergonhadamente protestantes. O defeito que encontro em muito catolicismo é que, concentrando-se na "opção preferencial pelos pobres", preserva Jesus, bonitinho e altarizado bem ao gosto da Zazie, fora dos corações das pessoas e dos seus próprios. Entretidas, dirão que há muito para fazer. Os pobres, a quem nunca deram a possibilidade de abandonar a pobreza enfiando-lhes Jesus pelos olhos adentro, esperarão o seu pressuroso empenho social.
Vão por mim: um pobre protestante tem mais possibilidade de o deixar de ser que um pobre católico. Não temos prazer em ajudar os pobres. Temos prazer em que deixem de o ser. Por isso temos muita classe média (a razão real do repúdio estético da Zazie) e pouca riqueza (porque não se enriquece facilmente em países católicos).
O que o Miguel devia ter escrito, bem ao jeito do católico G.K. Chesterton, era “há algo de mais radical na Boa Nova dos Evangelhos - a opção preferencial por mim”.

Tiago Cavaco
posted by @ 1:39 da tarde   8 comments
A riqueza e a pobreza dos cristões
Coisa lixada, a riqueza. Quem não a tem a ela aspira, donde não a pode achar um mal. Quem a tem não se consegue desprender dela e receia por si próprio, por causa dela. Pobres ou ricos, somos todos camelos nesta divina comédia. E quanto a opções: a da Santa Madre terá sido acumular riqueza para acudir à pobreza, a dos ricos católicos a de aligeirar riqueza para ganhar estreiteza, a dos pobres católicos a de acudirem à Igreja para se sentarem à mesa. E Cristo, bem-aventurando os pobres mas dizendo que sempre os haverá, vem propor-nos uma maior sageza: que a questão é inteiramente outra, é inteiramente o Outro. Tanto o pobre como o rico, ambos miseráveis em Graça, ambos dignos de misericórdia.

José, pedindo licença ao Landes
posted by @ 12:43 da tarde   0 comments
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Pobres
Um bocadinho mais lá para baixo o Miguel menciona a "opção preferencial pelos pobres" dos Evangelhos. Quando tiver mais vagar vou tentar escrever umas coisas sobre o assunto. Contra, claro.

Tiago Cavaco
posted by @ 10:59 da tarde   10 comments

Porque quando estou fraco, então é que sou forte. (II Coríntios 12:10)
cbs

posted by @ 1:07 da tarde   0 comments
O túmulo de Paulo
O Vaticano afirma ter (re)descoberto o túmulo do Apóstolo Paulo.
Espera-se agora uma verificação independente e exterior à igreja de Roma para que a afirmação seja confirmado.
Claro que, estando o Vaticano envolvido, a revelação terá sempre consequências políticas e religiosas. A centralidade de Roma, com os eventuais túmulos de Pedro e Paulo (só falta mesmo o de Maria…), sai reforçada em tempos de diálogo ecuménico e de construção europeia. Mas, sinceramente, essa análise cínica não me interessa por agora.
Neste primeiro momento, agrada-me a ideia quase infantil de ver esclarecidas algumas questões surgidas nos bancos da Escola Dominical. Como seria Paulo? Franzino, careca, de nariz adunco? E o tal “espinho na carne” (II Coríntios 12:7), vamos finalmente saber qual era?
Nota: antes de alguém correr para as relíquias leia o episódio de Paulo e Barnabé em Listra (Actos 14: 8 a 19).

Pedro Leal
posted by @ 10:21 da manhã   0 comments
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Sem mácula
Eu sempre disse que o acto sexual não era uma coisa positiva !

Paulo Ribeiro
posted by @ 9:26 da tarde   3 comments
Todas as minhas fontes estão em Ti (salmo 87)
cbs
posted by @ 6:53 da tarde   0 comments
Maria, a imaculada - Parte I
Jesus Critsto é alertado pelos escribas e fariseus que uma mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora, Moisés ordenava na lei que tais mulheres deveriam ser apedrejadas.
Jesus, não sem alguma insistência dos doutores, ergue-se e afirma: Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra.
Quando o povo já se dispersava, a começar pelos mais velhos até ao último, uma mulher chega-se à frente, pega numa pedra e zás!
Jesus exclama: Ó mãe!!!!

Rúben Baptista de Oliveira
posted by @ 9:26 da manhã   3 comments
domingo, dezembro 10, 2006
Maria cheia de graça
«Para nós, católicos, não existem dúvidas acerca da "natureza" da Mãe do Filho do Homem, Jesus, um profeta ao lado de outros no Islão e Deus vivo para nós.» Assim nos dizia há dias João Gonçalves, numa discussão sobre o aborto. Perdoe-se-me a ignorância de muitas catequeses e leituras, mas o dogma da Imaculada Conceição é do século XIX e muito sinceramente não foi a chave máxima para a verdadeira Revelação que é a vinda de Jesus Cristo, Filho de Deus, ao nosso mundo durante dezanove séculos. E mesmo que se invoque que Ela era cheia de Graça, essa graça bastou para a acompanharmos em silêncio (como faz a Maria de Gibson - das poucas notas positivas nesse pavoroso filme que é a Paixão de Cristão), sem alarde de cultos excessivos.

Aquilo que sempre me importuna nestes debates, como católico assumido e com percurso sério e crítico nesta Igreja que somos todos (antes que alguém atire a pedra errada, de um lado ou de outro), é a infalibilidade destas nossas certezas humanas, enquanto esquecemos que há algo de mais radical na Boa Nova dos Evangelhos - a opção preferencial pelos pobres.

Do aborto, noto (como já o fiz em tantos locais e mesmo em espaços eclesiais) como a Igreja Católica é bem mais afirmativa “nesta” defesa da vida do que em outros momentos, que nos exigem muito. Além de que, no caso do aborto, a defesa da vida deve sempre ser formulada no plural.

Miguel Marujo
posted by @ 8:23 da tarde   1 comments
Uma outra Maria...
Tal como o eminente teólogo britânico James Houston a certa altura afirmou na Universidade Católica, em Lisboa, a ênfase dada a Maria pela Igreja Católica pode bem ser uma forma desta se redimir da extrema masculinização que a estrutura foi sofrendo ao longo dos séculos. Sou apologista de uma Maria mais bíblica, necessariamente mais apagada, mas nem por isso menos importante no desempenho do seu papel no contexto global da heilsgeschichte. Não pretendendo competir com Margarida Rebelo Pinto no domínio do autoplágio, aqui vos deixo a minha humilde contribuição para a obra colectiva "Os Evangelhos 2006", editada pela Firmamento há cerca de 1 ano atrás. Trata-se de um comentário ao texto bíblico do Evangelho segundo Lucas, capítulo 2, versículos 41 a 52 e, como bem se percebe, não tem por objectivo desenvolver nenhuma tese sobre a questão mariológica e é, para além do mais, um texto devocional, não académico. Todavia, gostaria de deixar aqui evidenciado que admiro muito mais esta Maria que certamente tantas vezes não entendeu...
“E eles não entenderam…” O pretérito perfeito invariavelmente usado pelos tradutores bíblicos para a forma verbal do aoristo grego sunôkan tem aqui um sentido até certo ponto enigmático. Afinal não tinha José sido alvo de revelação específica de Deus através do anjo que lhe anunciara que a criança gerada em Maria era fruto da acção do Espírito Santo (Mateus 1:20-21)? Este era afinal o mesmo José a quem o anjo de Deus viria a aparecer novamente, prevenindo-o da intenção do rei Herodes em mandar matar o Menino (Mateus 2:13). Maria foi também alvo de diversas indicações de que aquele era um Menino especial, entre as quais o anúncio, pelo anjo Gabriel, de que ela havia sido escolhida para no seu ventre gerar o Filho de Deus (Lucas 1:30-33). Além disso, a presença de Maria na festa da Páscoa é um claro testemunho da sua devoção e piedade, pois tal presença era requerida apenas aos homens. Assim sendo, por que não entenderam eles?

Ao utilizar esta expressão, o evangelista Lucas não parece pretender conferir um tom acusativo à atitude do casal. É muito mais uma constatação, quase que uma desculpa perante tal atitude tão genuína e humana de José e Maria. Afinal, eles estavam preocupados com Jesus. Noutros passos dos evangelhos temos a indicação de que este “não entender” não se traduziu necessariamente em descrença, em dúvida ou mesmo em cepticismo. De Maria sabemos que reconheceu o poder de Jesus nas Bodas de Caná ao dar indicação aos servos de que fizessem como seu filho ordenasse (João 2:5); encontramo-la aos pés da cruz (João 19:25); e, pelo mesmo Lucas, ela é contada naqueles que se reuniam com os apóstolos para orar, logo a seguir à ascensão de Jesus (Actos 1:14). A verdade é que, naquele momento, “…eles não entenderam”.

A quase inexistência de referências evangélicas à infância e adolescência de Jesus tem intrigado muitos cristãos e não cristãos, ao longo de toda a história. Surgiram mesmo textos, os quais são considerados apócrifos, que procuravam colmatar esta suposta falha dos evangelistas divinamente inspirados. A verdade é que ao surgir apenas no Evangelho de Lucas, este texto confere um profundo significado teológico à cena aqui narrada.

A idade de 12 anos era um importante marco no desenvolvimento físico, intelectual, espiritual e social de qualquer varão judeu. A tónica dessa relevância é, aliás, confirmada pelo versículo 40 no qual Lucas nota que “…crescia o menino e era confortado em espírito, e cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele”. Curiosamente, como que encerrando este intertexto, este interlúdio das coisas importantes sobre a vida de Jesus, o versículo 52 repete esta mesma ideia com as seguintes palavras: “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus, e para com os homens”.

Embora a tradição talmúdica pareça indicar que mesmo crianças com idade inferior a 12 anos devessem participar nas mais importantes festas religiosas judaicas, esta era a idade comummente aceite para tal. Esta era a idade em que a criança assumia os seus compromissos religiosos tornando-se directamente responsável pela obediência à lei. Assim, não é de admirar a presença de Jesus no Templo, a qual poderia até ser a primeira desde que, com oito dias, como mandava a Lei de Moisés (Êxodo 13:2,12), José e Maria o tinham levado àquele mesmo local (Lucas 2:21). Do que os pais de Jesus não estavam certamente à espera foi o interesse manifestado pelo adolescente Jesus nas coisas de Deus, interesse esse que surpreendeu os próprios mestres e doutores da Lei ali presentes.

João Calvino (1509-1564), o eminente reformador do século XVI, diz no seu comentário aos Evangelhos Sinópticos que, ao contrário de Mateus, que prefere passar da infância de Jesus à sua plena manifestação, Lucas detém-se neste facto que lhe merece registo. Ainda segundo Calvino “a meio da sua infância, Cristo manifestou momentaneamente o seu futuro ofício ou, pelo menos, deu uma indicação, através de um evento único, daquilo que mais tarde viria a ser”. Este foi apenas um prenúncio do carácter único de Jesus e os seus próprios pais não o entenderam. Aqui está patente a substância do carácter salvífico da sua missão, plenamente assumida na bela imagem da pomba esvoaçante que descia dos céus ao mesmo tempo que uma voz se fazia ouvir anunciando: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3:17). Anos mais tarde uma outra voz, a voz do próprio Jesus, uma voz desta feita fraca e fatigada, desiludida com a incompreensão e com a ignomínia da espécie humana viria a clamar Tetélestai – “Está consumado” (João 19:30). No entanto, este não foi um grito de morte, mas sim o anúncio da verdadeira vida. Este foi afinal o dia em que a morte morreu!

Na altura em que o adolescente Jesus foi interpelado pelos seus pais, “eles não entenderam”. Quanto mais coisas ainda nos falta compreender, a nós, homens e mulheres do século XXI? Certamente que compreendemos os rudimentos do complexo e sofisticado mundo tecnológico em que nos movimentamos e que ajudamos a alimentar. Certamente que nos sentimos habilitados a dar pormenores e explicações em relação à catástrofe que aconteceu instantes atrás no outro lado do mundo. Certamente que nos deliciamos com as imagens que nos chegam do espaço sideral já conquistado pelo poder do engenho e da astúcia humanas, esse espaço “acima” do planeta azul que nos serve de casa. Certamente que abarcamos o essencial das idiossincrasias próprias de cada grupo, etnia ou povo de modo a que possamos comunicar com eles.
Porém, já entendemos Jesus? Já compreendemos a plena dimensão do seu ministério e da sua obra? Ambrósio (c. 340-397), um dos doutores da Igreja, faz notar a simbologia patente nos três dias em que Jesus esteve “perdido”. Diz Ambrósio: “Não é por acaso que, esquecido na carne pelos seus pais, ele certamente pleno da sabedoria e da graça de Deus é encontrado após três dias no Templo. É um sinal de que ele, que foi crido morto pela nossa fé, se ergueria de novo após três dias da sua triunfal paixão e surgiria no seu trono celestial com honra divina”. Entendemos Jesus entendendo a sua ressurreição. De quanto mais precisa a humanidade para entender Jesus?

Tim Cavaco

posted by @ 5:44 da tarde   2 comments
sábado, dezembro 09, 2006
O silencio de Maria

O Concílio Vaticano II foi um exemplo impressionante de como a questão de "Maria" está carregada de tensão emocional.
É um contrasenso incrível que seja o centro de tanta polémica, a mulher que no Evangelho aparece sempre em segundo plano, serenamente, mal abrindo a boca...

Maria não é soberana mas servidora.
Não é semideusa mas a "pobre de Deus".
Não é meta mas caminho...
Acima de tudo, é a Mãe que continua dando à luz Jesus dentro de mim.
Inacio Larrañaga, por cbs

posted by @ 10:07 da tarde   5 comments
Pensando melhor… vamos por partes

Não existe diferença na perspectiva racional entre o liberalismo e o marxismo, ambas as ideologias se baseiam na razão moderna.

1. Quando escreveu “Europa um conceito "cultural" (que o é, penso eu) e até não se importavam que ela fosse, de comboio, até Vladivostok, até ao Pacífico, até à Antártida” Polido Valente, extrapolou um expansionismo megalómano (que não nego que existe) do apoio de José Policarpo à entrada da Turquia na U.E.; Mas isso não foi defendido pelo cardeal que apenas falou na Turquia, adesão aliás pedida e não imposta (o que faz muita, muita diferença).

2. Quando referiu “uma nova religião secular, que se julga destinada a um triunfo ecuménico” penso que Polido Valente disse nova, por considerar o marxismo a antiga religião secular, e não para casar o marxismo com o liberalismo; aliás intriga-me-ia, nessa versão, qual seria o papel de D. Policarpo... liberal ou marxista?

3. O destino de “um triunfo ecuménico” não é uma marca liberal ou sequer marxista (as religiões seculares de VPV) mas de toda o processo da Modernidade e que se exprime na ideia de finalidade do Progresso; mas a sua génese está (salvo melhor opinião) no casamento de um “judaísmo universalista”, o Cristianismo de Paulo, com a racionalidade clássica (também universalista) do Império Romano de Constantino; foi aí aliás que começou o caminho pelo qual Platão e Aristóteles foram parar a Agostinho e Tomás.
O que é teleológico e comum às religiões do Livro (não assim, se formos para oriente) e ao processo da Modernidade é essa crença no destino seja ele um paraíso celeste (místico) ou o paraíso terrestre (secular).

4. Polido Valente escreve sempre no seu melhor estilo, que não me atreveria a comparar como o meu.
Tenho uma discordância de fundo, não propriamente com ele, mas com posição filosófica “realista”. Com ele estou muitas vezes de acordo e a aprender, já leu muito... é um monstro (de conhecimento).
O pior, o pior é a forma como ele escreve, numa perspectiva cínica atravessada por uma espécie de infalibilidade que relega os outros para o canto da sala, com orelhas de burro e virados para a parede.

VPV terminou o escrito a que me referi com a frase “O marxismo deixou descendência” dando como descendente a “nova religião secular…mistura do cristianismo com a herança liberal”; se tivesse escrito “sucessor”, abster-me-ia de marrar com ele nesse particular, mas "descendência" implica ligação genética, não mera sucessão.
Assim dito discordo (a nova religião sucede, mas não descende do Marxismo), e o que tentei explicar foi que todas as teleologias seculares da Modernidade, a própria ideia progressista, derivam da teleologia religiosa Cristã, essa é que é a mater.

cbs
posted by @ 4:07 da tarde   9 comments
sexta-feira, dezembro 08, 2006
eu te saúdo Maria
Hoje é definitivamente o dia para os católicos darem à língua aqui no Trento. E pensando hoje na Imaculada, pensei que foi ali que eu disse o que tinha a dizer. E que é aqui que quero voltar a dizê-lo.

Maria, tu podes: és mãe de Deus!
Maria, tu queres: és nossa mãe!
(Cantilena dos peregrinos ao Sameiro)

Saúdo-te, Maria, mas nunca soube muito bem o que pensar de ti. Não sei se foste concebida sem pecado. Não sei se o teu corpo ascendeu aos céus, tal como o do Teu Filho. Não sei se permaneceste imaculada ou se deste filhos naturais ao bom José. Não sei qual o papel que desempenhas hoje no Céu, junto do Deus Trino. Não sei se apareces de quando em quando a esta gente aflita que gosta de se sentir tua filha. Não sei se intercedes ainda por nós.
Mas sei, isso sim, que sendo tu como nós, Deus escolheu-te para encarnar no teu seio, para de ti nascer, viver e morrer entre nós e por nós. Como nós todos, tu conténs em ti a imagem e semelhança de Deus, com que Ele nos criou. Mas tu contiveste também a substância Dele. Tu deste-lhe também um pouco da tua própria imagem e semelhança. E se Ele ofereceu a vida por nós todos, a ti Ele ofereceu incomparavelmente mais: como teu Filho, Ele deixou-Se conhecer por ti, inteiramente, como toda a mãe conhece o seu filho. Por ti e unicamente a ti, ele prescindiu da Sua incognoscibilidade. E só tu O compreendeste sempre, inteiramente, durante os trinta anos do vosso silêncio, durante os três anos da Sua revelação ao Mundo, durante os três dias da Sua Páscoa.
E sei que foi de ti que João Evangelista, o discípulo por Ele amado, aquele que se fez teu filho pelo resto dos teus dias, teve o conhecimento verdadeiro do teu filho Jesus, aquele conhecimento que torna tão diferente e tão único o seu Evangelho. Ora foi este mesmo João, talvez olhando para ti, que nos disse a nós outros que «não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é». A ti manifestou-se, em tua vida tu viste-O tal qual Ele é, assim recuperaste tu a tua semelhança com Ele. Tu tornaste-te Um com Ele e Ele contigo. Ainda em tua vida, tu já estavas Nele e Ele em ti.
Por isso, muitos que Nele acreditaram, quiseram acreditar que tu sempre estiveste em Deus, isenta de pecado como Deus é isento de pecado. E sem morte corporal pois, em tua vida, tu já tinhas chegado a Deus, como nunca tinha acontecido nem voltou a acontecer. E sendo tu uma de nós, quiseram também acreditar que estando tu em Deus, tornaste-o mais próximo de nós que andamos por aqui. E como tal, para ti viraram a sua Fé, aquela Fé que não é apenas acreditar e compreender mas também entregar assim a nossa esperança.
E também por isso, Maria, eu que não costumo pedir-te nada, eu que gosto de ti mais do que te adoro, eu compreendo bem todos aqueles que invocam a tua intercessão, aqueles que sabem da tua imaculada concepção, aqueles louvam a tua imaculada condição, aqueles que te chamam Raínha, aqueles que se colocam sob a tua protecção, aqueles que suspiram por um sinal teu. É precisamente pensando neles e em ti, que eu às vezes me pergunto: o que é afinal a teologia ao pé da Fé?
Tu que me viste no Sameiro, pasmando para aquela gente simples que entoava ladaínhas absurdas em teu louvor, não deixaste contudo que aquele detestável e costumeiro desprezo me invadisse o coração. Pois pensando em ti e naquilo que tu foste, senti que o Deus de quem aqueles meus irmãos na Fé dizem tu seres Mãe, esse Deus em que acredito certamente se comprazia neles.
Por isso, eu te saúdo, Maria, pois estás em Deus e és verdadeiramente Mãe.
José
posted by @ 10:40 da tarde   1 comments
despeço-me da Terra da Alegria
Como se sabe, hoje celebra-se o bonito dogma da Imaculada Conceição, assim chamado porque, desde o primeiro instante da sua conceição, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada da nódoa do pecado original, por privilégio único de Deus e aplicação dos merecimentos de seu divino Filho.
O dogma abrange dois pontos importantes:
a) O primeiro é ter sido a Santíssima Virgem preservada da mancha original desde o princípio de sua conceição. Deus abrogou para ela a lei de propagação do pecado original dos descendentes de Adão; ou, dito de outro modo, a Nossa Senhora foi agraciada, desde o começo da sua vida, com os dons da graça santificante.
b) O segundo realça que tal privilégio não lhe era devido por direito. Foi concedido na previsão dos merecimentos de Jesus Cristo. O que valeu à Virgem Maria este favor peculiar foram os benefícios da Redenção, na previsão dos méritos de Jesus Cristo, que já existiam nos eternos desígnios de Deus.

Para quem não quer pensar neste dogma proclamado há 156 anos em favor da Padroeira de Portugal, fique-se com esta: acabou hoje a Terra da Alegria. Em solene dignidade festiva, como deve ser um funeral cristão.

Carlos Cunha
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quinta-feira, dezembro 07, 2006
Da mistura do cristianismo com a herança liberal

"A mistura do Cristianismo (católico ou não) com a herança liberal produziu, como era de prever, uma nova religião secular, que se julga destinada a um triunfo ecuménico.
O marxismo deixou descendência."
(VascoPolidoValente, Publico 2/XII/2006)

O protestantismo é já o resultado da mistura cristã-liberal e é pré-moderno.A Igreja Católica é a herdeira cultural do império romano e a sua natureza não é moderna, pelo contrário.
Assim se reafirmou no Vaticano I (a infalibilidade papal), mas se mudou muito no Vaticano II, adaptando-se à Modernidade, com o aligeirar da hierarquização e a introdução de elementos democratizantes, por exemplo.
Secular é todo o processo da Modernidade com separação rígida entre as esferas espiritual (religião) e temporal (estado).
Contudo, o Marxismo-leninismo apresentando-se como secular, contém intrinseca uma mentalidade religiosa (influencia do pai judeu?), cujo essencial se revela na teleologia, no apelo a sentimentos profundos de triunfalismo contrapostos às culpas, apontando a causalidades finais predestinadas.
Curiosamente, assim se parece também algum do designado "Neo-liberalismo", crente no bom resultado final da receita, nem que para isso morram uns descartáveis pelo caminho.
Isto para dizer que não foi, parece-me a mim, o Marxismo (apenas seguiu a raíz teleológica), foi sim a augusta Roma que deixou descendencia… misturada com a herança judaica, o Cristianismo.
É importante definir, são questões de familia.

cbs

posted by @ 10:07 da tarde   5 comments
terça-feira, dezembro 05, 2006
Formas de aproximação

























Quem tem poucos membros, pouquíssimos mecenas e acesso interdito (e muito bem) aos dinheiros públicos tem que se reunir em caves, lojas e garagens. É o que acontece à maioria das igrejas evangélicas. A descoberta de uma comunidade católica ocupando a cave nas traseiras de um prédio de habitação (com a curiosidade de no outro extremo do quarteirão estar uma igreja Maná) pode trazer, assim, um surpreendente sentimento de aproximação.

Pedro Leal
posted by @ 4:58 da tarde   1 comments
Uma preciosa excepção teológica
Consinta-se num elogio a Chavez: é dos poucos políticos a demonstrar cristianismo suficiente para acreditar no Diabo.

Tiago Cavaco
posted by @ 11:04 da manhã   1 comments
sábado, dezembro 02, 2006
Dona nobis pacem
Em tempos fui ateu. Talvez isso explique a simpatia inconsciente que tenho por eles (nunca fui protestante). No fim da adolescência li alguns livros que contribuíram para o progressivo abandono do ateísmo. Curiosamente, foi um escritor ateu (ou pelo menos dizem que o era) que muito contribuiu para esse afastamento : John Steinbeck. Ainda agora o considero como o maior escritor que alguma vez existiu. Outro foi o escritor católico Graham Greene.

Num ensaio de 2002, «Consciousness and the Novel», David Lodge (outro escritor católico) escreve a propósito de Green:

"Os romances mais poderosos de Green são aqueles em que o autor implícitamente se identifica com os personagens que transgrediram os limites da sociedade civilizada e que são torturados por uma angústia moral e metafísica. Ele conduz-nos ao interior do seu espírito no estilo indirecto livre mas confere-lhes um pouco da sua própria eloquência utilizando assim os privilégios do narrador omnisciente tradicional. Por exemplo, eis uma passagem que diz respeito a um adolescente católico e fora da lei, Pinkie Brown, em 'Brighton Rock' (traduzido em português como 'A inocência e o pecado'). Ele conduz a inocente e muito crente Rosa a concluir o que ela pensa ser um pacto suicidário, mas que ele conta na realidade transformar em assassínio para cobrir os traços de um crime anterior:

  • 'O carro avançou para a estrada principal na direcção de Brighton. Uma imensa emoção pesava sobre ele. Era como qualquer coisa que ten­tasse entrar no seu intímo, como a pressão de asas gigantescas contra o pára-brisas. «Dona nobis pacem». Ele resistiu com toda a força desesperada do banco de escola, do pátio de cimento, da sala de espera de St. Pancras, da luxúria secreta de Dallow e Judy e daquele momento de adversidade no frio cruel do molhe. Se o vidro se quebrasse, se o animal desconhecido entrasse, sabe Deus o que ele não faria! Pinkie tinha uma impressão de um imenso massacre — a confissão, a penitência e o sacramento — um momento de afastamento fúnebre, e guiava às cegas debaixo da chuva'"


timshel
posted by @ 8:10 da manhã   15 comments
Um blogue de protestantes e católicos.
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