sábado, dezembro 09, 2006
Pensando melhor… vamos por partes

Não existe diferença na perspectiva racional entre o liberalismo e o marxismo, ambas as ideologias se baseiam na razão moderna.

1. Quando escreveu “Europa um conceito "cultural" (que o é, penso eu) e até não se importavam que ela fosse, de comboio, até Vladivostok, até ao Pacífico, até à Antártida” Polido Valente, extrapolou um expansionismo megalómano (que não nego que existe) do apoio de José Policarpo à entrada da Turquia na U.E.; Mas isso não foi defendido pelo cardeal que apenas falou na Turquia, adesão aliás pedida e não imposta (o que faz muita, muita diferença).

2. Quando referiu “uma nova religião secular, que se julga destinada a um triunfo ecuménico” penso que Polido Valente disse nova, por considerar o marxismo a antiga religião secular, e não para casar o marxismo com o liberalismo; aliás intriga-me-ia, nessa versão, qual seria o papel de D. Policarpo... liberal ou marxista?

3. O destino de “um triunfo ecuménico” não é uma marca liberal ou sequer marxista (as religiões seculares de VPV) mas de toda o processo da Modernidade e que se exprime na ideia de finalidade do Progresso; mas a sua génese está (salvo melhor opinião) no casamento de um “judaísmo universalista”, o Cristianismo de Paulo, com a racionalidade clássica (também universalista) do Império Romano de Constantino; foi aí aliás que começou o caminho pelo qual Platão e Aristóteles foram parar a Agostinho e Tomás.
O que é teleológico e comum às religiões do Livro (não assim, se formos para oriente) e ao processo da Modernidade é essa crença no destino seja ele um paraíso celeste (místico) ou o paraíso terrestre (secular).

4. Polido Valente escreve sempre no seu melhor estilo, que não me atreveria a comparar como o meu.
Tenho uma discordância de fundo, não propriamente com ele, mas com posição filosófica “realista”. Com ele estou muitas vezes de acordo e a aprender, já leu muito... é um monstro (de conhecimento).
O pior, o pior é a forma como ele escreve, numa perspectiva cínica atravessada por uma espécie de infalibilidade que relega os outros para o canto da sala, com orelhas de burro e virados para a parede.

VPV terminou o escrito a que me referi com a frase “O marxismo deixou descendência” dando como descendente a “nova religião secular…mistura do cristianismo com a herança liberal”; se tivesse escrito “sucessor”, abster-me-ia de marrar com ele nesse particular, mas "descendência" implica ligação genética, não mera sucessão.
Assim dito discordo (a nova religião sucede, mas não descende do Marxismo), e o que tentei explicar foi que todas as teleologias seculares da Modernidade, a própria ideia progressista, derivam da teleologia religiosa Cristã, essa é que é a mater.

cbs
posted by @ 4:07 da tarde  
9 Comments:
  • At 9 de dezembro de 2006 às 18:03, Blogger zazie said…

    Pulido. Vasco Pulido Valente.

    A resposta ao Júdice saiu hoje no Público.
    O resto são fantasias que nem comento.

    Ninguém falou de nada disso. O tema do debate entre o VPV e o Júdice foi outro.


    A história é simples e resume-se em 2 penadas.

    O VPV gozou com a megalomania expansionista do Papa ao querer "apanhar" partes islamizadas. Comparou-a à expansão romana.
    E disse, que os perigos a curto prazo (pelos motivos que hoje enumerou melhor- mundos diferentes, religião nada pacífica etc. etc.) seriam suficientemente desvantajosos em comparação com os possíveis benefícios a longo prazo.

    Depois, mandou umas bocas ao Júdice por este ter vindo com uma treta de uma história em que até seria mais vantajoso para nós (Europa e tugas) uma ligação mediterrânico-islâmica que uma com o Norte da Europa- argumento dele: até estamos mais perto.

    A resposta do VPV foi simples: já agora, gozando com a Europa megalómana, até se vai à Antártida se os pinguins pedirem.

    E vamos abrir portas a conflitos com mundos que não partilham os nossos valores, porque, pelos vistos, à utopia da descendência marxista, se junta agora o liberalismo do mercado global.

    Resumindo:

    1-o marxismo foi para o Júdice (que nem sabe o que é a Europa e hoje o VPV deu-lhe um bailinho (ele dizia que a Europa começou há pouco tempo por causa da URSS (como se não existisse a noção de Europa Cristã medieval ou a Protestante - que até a dividiu politica e religiosamente.

    Ecumenismo marxista+ liberalismo= a boa utopia expansionista+ mercado global

    E deu-lhe mais um bailinho porque o Júdice tinha como argumento para ese bom expansionismo, a ideia do laicismo. Até disse uma bacorada como foi graças a esse laicismo que se conviveu com os mouros.


    2- O Papa nada teve a ver com marxismos. Como é mais que óbvio. Pois o Papa só tem a ver com a caracterização que o VPV deu do Vaticano actual- à Romana. megalomania expansionista à Romana para chegar à igreja Ortodoxa. Claro que também entende que a ideia é política (neutralizar o islão, no pouco que conseguir) mas acha que isso é palno a longo tempo que não tem vantagens face aos problemas mais concretos que a abertura política (a do Júdide)- pode causar.

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 18:07, Blogger zazie said…

    Não é por nada, mas penso que este tipo de postais sem preparação alguma, deturpando tudo o que foi escrito, ficavam melhor em blogue estritamente pessoal.

    É só uma opinião. Não tenho nada a ver com o Trento na Língua mas há exigências mínimas de rigor que se devem ter.

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 18:18, Blogger zazie said…

    Aqui ficam os respectivos textos, para quem esteja interessado, ou queira ajuizar.

    Pela minha parte achei engraçada a confusão e nem me pronunciei acerca de qual será a mais correcta.

    Para isso era preciso começar-se por ler o que lá está escrito. Estropiando tudo conseguem-se ficções com piada. Não se consegue mais nada.
    ...................
    A descendência
    VASCO PULIDO VALENTE
    Écurioso e um pouco assustador verificar outra vez como em política e religião a loucura anda sempre muito perto da superfície. A visita do Papa à Turquia provocou devaneios, que habitualmente estão escondidos pela conveniência diplomática ou pelo senso comum. O devaneio da "Europa", por exemplo. Onde acaba e onde começa a "Europa"? A norte, pensa D. José Policarpo, na Lituânia, na Estónia e na Letónia e até talvez na Bielorússia, apesar de Moscovo não levar, parece, a coisa a bem. A leste, evidentemente, na Ucrânia, na Roménia e na Bulgária, ou seja, no Mar Negro. E, a sul, lembra com subtileza o Patriarca de Lisboa, a Turquia "dava muito jeito" para definir a fronteira. Um belo império soft power, com certeza. Sobretudo, porque há russos que acham a "Europa" um conceito "cultural" e até não se importavam que ela fosse, de comboio, até Vladivostok, até ao Pacífico, até à Antártida, se os pinguins pedissem. D. José concorda. Deus vela. E a megalomania não tem limites.
    O dr. José Miguel Júdice, por seu lado, proclama "Ich bin ein Mediterraner" (parafraseando a despropósito Kennedy em Berlim). Levou uma pancada na cabeça? Viu a luz? Que será que ele quer? Quer, calculem, fazer o Mediterrâneo "prioritário"? Para quem? Para Portugal? Não se percebe. Só se percebe que Júdice está convencidíssimo que a paz do mundo e a sobrevivência da humanidade dependem de um entendimento entre o islão e a cristandade para tornar o Mediterrâneo um "lago" comum. Como antigamente. À romana. Para isso, basta "laicizar" o islão. Infelizmente, Júdice não sabe o que significa "laicizar" ou não sabe o que é o islão. Mas sabe, e "afirma", que tem uma afinidade (indescrita) com um marroquino ou um libanês, que não tem com um lituano, um sueco ou um eslovaco. Rabat, explica ele, fica mais perto de Lisboa do que Madrid. Como Beirute, suponho.
    Desvarios? Provavelmente. Mas não de acaso. O sr. D. José e José Júdice partilham uma convicção, a convicção da superioridade absoluta da ortodoxia ideológica do Ocidente: a dignidade da pessoa, a liberdade, a tolerância, a famosa "abertura". E, lá no fundo, acreditam que ninguém consegue resistir a tanta perfeição. A mistura do cristianismo (católico ou não) com a herança liberal produziu, como era de prever, uma nova religião secular, que se julga destinada a um triunfo ecuménico. O marxismo deixou descendência.

    De novo no Mediterrâneo
    José Miguel Júdice
    Usando o mais depurado estilo e o seu melhor gosto, Vasco Pulido Valente (V.P.V.) chamou-me louco a propósito do artigo que publiquei na passada semana, algumas páginas antes do seu. Por uma vez, admito que dando-lhe talvez um desgosto, vou levar V.P.V. a sério, respondendo-lhe.
    O tema - que não os pouco urbanos epítetos com que fui brindado - justifica seriamente que se volte a ele. Começando por resumir o que escrevi:
    1. O principal conflito internacional que pode ter efeitos destrutivos no nosso tempo, e em especial na Europa, está centrado no Mediterrâneo.
    2. A Europa é uma realidade geopolítica historicamente muito recente e o seu processo de unificação em curso foi o resultado do choque das duas guerras civis que a destroçaram no século XX e da necessidade de enfrentar a ameaça soviética.
    3. Por inércia, o programa da União Europeia continua a expandir-se para Leste, quem sabe se até ao Cazaquistão, e tem sido - subliminarmente - estruturado como um projecto da "civilização cristã".
    4. Se excluirmos o factor "religião" e o grau de desenvolvimento político, há mais factores objectivos de unidade entre os 26 países da orla mediterrânica do que entre os mais de 26 países já inseridos (ou em processo de inserção) na União Europeia.
    5. A força da demografia e do magnetismo dos empregos terá como resultado inevitável que a religião islâmica será cada vez mais importante na Europa e a pobreza comparativa e a falta de horizontes do Norte de África só irá acentuar ainda mais o fluxo migratório de muçulmanos.
    6. É inevitável que no prazo de dez a 30 anos a tecnologia da bomba atómica e os recursos necessários para a construir estejam à disposição de um ou mais Estados islâmicos.
    7. A laicização no mundo cristão, que permitiu diminuir fortemente a conflitualidade dos tempos medievais contra os "mouros" e a que assolou a Idade Moderna europeia após Lutero e Calvino, foi potenciada pelo desenvolvimento económico-social, pela criação de uma sólida classe média burguesa e pela diminuição da miséria das populações.
    8. O espaço do Mediterrâneo deve ser geopoliticamente reforçado e, em conformidade, é essencial que os países das suas margens e as religiões (ou as civilizações) dos seus povos se habituem a construir um espaço em comum, onde possam viver em paz. Nesse contexto, defendo a criação de uma zona de comércio livre (como em tempos foi a EFTA) que permita potenciar o desenvolvimento sustentado dos países do Norte de África e do Próximo Oriente, tendo em vista uma eventual futura integração, pelo menos com razões tão sólidas como as que justificam a integração prometida da Turquia.
    9. Entendo que o projecto da União Europeia deve manter-se, sem prejuízo de correcções e melhorias, mas que deve acabar a sua expansão para Leste, que cada vez faz menos sentido, nos planos geopolítico e geoestratégico. Mas esta zona de prosperidade deve ser capaz de fazer algo semelhante ao que foi feito em relação à Europa pelos EUA a seguir a 1945: lançar o equivalente a um Plano Marshall para o Mediterrâneo.
    Nada disto exprime ou pressupõe uma teoria da superioridade da civilização "cristã" ou "europeia", não se insere nos conceitos coloniais do "fardo do homem branco" e não pretende ter como resultado a alteração fácil de paradigmas impressos nas culturas dos povos. Se tivesse de optar, diria que se baseia num paradigma oposto, o da aceitação do relativismo das civilizações, do reforço da matriz laica da nossa civilização e do horror ao proselitismo.
    Concordo com quem diga (mesmo que seja V.P.V. e que o faça ao seu estilo muito próprio) que a estrutura nuclear do islamismo (e em especial a inexistência de uma autoridade religiosa central e de uma doutrina da separação do Estado e da Igreja à maneira europeia actual) não é de molde a que se depositem fortes esperanças no sucesso deste meu projecto. E, infelizmente, no mesmo sentido aponta a inexistência de uma liderança política e estratégica na Europa, a fraqueza dos seus políticos, o egoísmo e as vistas curtas das nossas classes médias, a feroz concorrência decorrente da globalização das trocas comerciais.
    E não desconheço os abcessos de fixação de tragédias como são a Palestina, o ódio entre xiistas e sunitas (que tem paralelo no que a Europa viveu nos tempos da Reforma e da Contra-Reforma) e a força de versões messiânicas e fundamentalistas do islamismo que - como forma de compromisso para a tolerância das mesquitas com práticas criticáveis - foi favorecido por elites de certos países árabes.
    Mas, por mais que leia, que estude e que pense, não consigo encontrar nenhuma solução melhor e, sobretudo, menos dispendiosa e contraproducente. Se não, vejamos:
    1. A solução idealista neoconservadora americana, da "boa infecção" (quem prova a democracia não quer mais nada e quem a vê praticar ao lado também vai querer): veja-se o atoleiro do Iraque - para o qual alertei quando critiquei pública e formalmente a invasão americana.
    2. A solução militar, que foi praticada ao longo da História, quer na vertente radical dos genocídios e exterminação de povos inteiros, quer na destruição das suas raízes culturais com ocupação violenta, quer na também ingénua solução de batalhões de missionários com a cruz e a Bíblia como armas: veja-se o que deu no século XX e, sobretudo, parece ser inviável perante uma religião que tem mais de um bilião de fiéis.
    3. A criação de uma fortaleza europeia, fechada ao exterior, com políticas de imigração extremistas e baseadas na raça ou no credo, talvez com a colocação de muros de betão nas praias do Sul e com campos de minas no Mediterrâneo: para além de até já ser tarde de mais para isso, como é óbvio, a solução seria totalmente inviável em termos práticos.
    4. O equilíbrio do terror, com armamento cada vez mais sofisticado de ambas as partes: mas onde é que está "a outra parte" com quem estruturar esse equilíbrio?
    5. Deixar andar, nada fazer, esperar que tudo corra bem e não aconteça nunca nenhuma tragédia. Ou, o que dá no mesmo, e está mais de acordo com a estrutura psicológica de V.P.V., esperar que tudo corra mal, para assim se provar que nada tem solução, que não há nada a fazer e que o mundo está condenado... pelo menos a partir do dia em que o meu colega da última página do PÚBLICO desistir de escrever. Advogado

    P.S. - Numa coisa errei, mas isso exprime menos falta de sanidade do que de conhecimentos de geografia e de matemática. Como me informou muito amigavelmente o professor João Queiró, e ao contrário do que sempre ouvira dizer, a distância entre Rabat e Lisboa é cerca de 40 km maior do que entre Lisboa e Madrid. Mas em todo o caso muito menor do que a distância para Riga, para Oslo ou para Bucareste. Também por isso insisto - por muito que assim surja como loucura aos olhos serenos e saudáveis de V.P.V.- que, à beira do Atlântico, me considero um mediterrânico.


    Manias
    Vasco Pulido Valente
    José Miguel Júdice (J.M.J.) escreve sempre no seu melhor estilo, que não me atreveria a comparar com o meu. O pior é o que ele escreve. Por uma vez, sem excepção, resolvi comentar o longo artigo em que ele me "responde". Três pontos bastam.
    1. J.M.J. diz que "a Europa é uma realidade geopolítica historicamente muito recente". Não sei a que Europa se refere: se à "Europa" de Bruxelas, se à Europa da Cristandade Latina e, a seguir, Protestante e Católica. Se, por acaso, se refere à segunda, só lhe recomendo que leia um bocadinho.
    2. J.M.J. diz que "se excluirmos o factor "religioso" (aspas dele) e o grau de desenvolvimento político, há mais factores objectivos de unidade entre os 26 países da orla mediterrânica do que entre os mais de 26 países já inseridos (ou em processo de inserção) na União Europeia".
    J.M.J. não cai na excessiva franqueza de nos confessar quais são os "factores objectivos de unidade entre os 26 países da orla mediterrânica". E exclui desses "factores objectivos de unidade" a "religião" e o "grau de desenvolvimento político". Pormenores, no fundo. Se excluir também o hinterland, o tribalismo, a fraqueza ou inexistência do Estado-nação ou do "Estado-histórico", a "escrita", a cultura, a desigualdade social, o pouco peso da classe média, o atraso tecnológico, a iliteracia, a situação da mulher e a absoluta miséria de quase toda a gente encontra com certeza muito mais razões para acreditar na sua luminosa tese.
    3. J.M.J. diz que "a laicização (ele não sabe de facto o significado dessa misteriosa palavra) no mundo cristão (...) permitiu diminuir fortemente a conflitualidade dos tempos medievais contra os "mouros" (aspas dele) e a que assolou a Idade Moderna europeia após Lutero e Calvino...". De qualquer maneira que se leia, a observação não faz sentido. Só serve para mostrar que J.M.J. precisa de ler um bocadinho.
    J.M.J. está enganado: não lhe chamei louco. Chamei loucura à tese ou "projecto" dele (a comunidade mediterrânica). Uma coisa muito diferente. J.M.J. arranjou uma marotte, que defende com a maior ignorância e um extravagante irrealismo (que, de resto, num ou noutro intervalo lúcido, ele mesmo admite). Sucede que não é possível falar com esta espécie de "iluminados". Já experimentei e perdi tempo. Não tenciono reincidir.

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 18:50, Blogger zazie said…

    O texto inicial do Júdice (que levou o VPV a dizer que ele deve ter apanhado alguma pancada na cabeça)
    foi este:

    Ich bin ein "Mediterraner"
    José Miguel Júdice



    Há menos de quatro séculos, ou seja, anteontem em termos históricos, antepassados meus chamavam-se Alarcón; há dois séculos, ou seja ontem, outros chamavam-se Giudici. Dizem os entendidos nessas coisas que posso traçar até à Hégira uma linha familiar. E se me puserem um chapéu na cabeça ninguém terá dúvidas sobre a minha ancestralidade judaica. Sinto-me, por isso, também um imigrante em Portugal e um europeu de tendência mediterrânica.
    Depois deste, já habitual, registo de interesses, diga-se que hoje escrevo a pretexto da visita do Papa à Turquia. Acompanhei a polémica gerada pelas declarações papais em Ratisbona e só posso afirmar que ele tem toda a razão... na medida em que afirme o mesmo em relação ao cristianismo e ao judaísmo. A História do Mediterrâneo revela-nos que os muçulmanos foram acolhidos no Norte de África como libertadores da violenta tutela da ortodoxia bizantina pelos cristãos heterodoxos, que as Cruzadas não eram propriamente um exemplo de racionalismo e que a colonização cristã europeia, se pecou, foi por excesso e não por falta de violência. E o mesmo pode dizer do judaísmo militante, que de vítima muitas vezes passou a opressor.
    O que isto demonstra é que há sempre uma possível lógica imanente nas religiões que é o fundamentalismo, ou pelo menos um proselitismo excessivo. E que, como resultado disso, as religiões do Livro usaram e praticaram a violência vezes demais, apesar de as palavras dos Livros Sagrados pedirem em regra o contrário. Mas, e de novo convém olhar para o Mediterrâneo, judeus escorraçados por soberanos cristãos encontraram protecção na Sublime Porta, em Alcácer Quibir havia cristãos ("renegados") do lado árabe e muçulmanos ("apóstatas") com D. Sebastião, e Bento XV e muitos soberanos europeus apoiaram e protegeram povos islâmicos contra violências diversas.
    Indo um pouco mais fundo na reflexão, parece-me óbvio que mais década, menos década, grupos extremistas e/ou países islâmicos terão acesso à bomba atómica. E também me parece óbvio que quem se suicida com um cinturão de explosivos num mercado repleto de mulheres e crianças não terá problemas morais em fazer o mesmo com uma bomba atómica, numa das principais capitais europeias e/ou do chamado "mundo cristão".
    Se (quando?) isso acontecer, a lógica da retaliação será inevitável. Se Bush agiu como agiu (e convém lembrar, agora que muitos querem esquecê-lo, com apoio quase unânime) a seguir ao atentado sobre as Torres Gémeas, onde morreram três mil pessoas, como agiria alguém depois da morte de 300 mil ou de três milhões?
    Ora, sendo assim, é possível afirmar - e creio que também aqui ninguém estará em desacordo comigo - que a paz do mundo, e até a sobrevivência da humanidade sem uma regressão de milénios, depende do que for possível construir entre povos de inspiração cristã e os de obediência muçulmana. E se olharmos para o mapa (e não esquecendo o mundo do xiismo não árabe) é evidente que isso se irá decidir naquilo que há séculos foi o espaço da pax romana, o lago a que chamam Mediterrâneo.
    Nessa zona, que tem grande unidade geográfica, orográfica, ambiental, racial e sobretudo cultural, se vai decidir o destino dos nossos filhos e netos. À volta dessa superfície de água estão 26 países. Neles se concentra o legado de grandes civilizações (judaica, grega, romana, cristã, islâmica) que estiveram na origem das que hoje se podem autodestruir e com isso destruírem o nosso mundo. Se entre esses países e os que os habitam for possível criar uma zona de paz e de prosperidade, acredito que os riscos de destruição maciça irão reduzir-se muito substancialmente.
    Para isso, o Mediterrâneo deve ser prioritário e a laicização (ou, pelo menos, o amolecimento dos proselitismos religiosos) deve ser acentuada. Laicizar não significa destruir a crença numa divindade, mas significa seguramente a diminuição do condicionamento das religiões sobre a nossa vida diária, a aceitação natural do ateísmo, do pluralismo religioso e da liberdade de culto. Dar prioridade ao Mediterrâneo tem de significar a criação entre as margens desse lago de uma zona de comércio livre que abra o caminho para uma futura integração económica entre o Norte de África e o Sul da Europa.
    Sei que esta afirmação é uma das menos politicamente correctas que fiz em toda a minha vida. Medi as palavras, tenho lido e pensado muito sobre o tema, tenho vivido o Mediterrâneo com olhos abertos e por isso afirmo: tenho muito mais em comum com um habitante de Marrocos ou do Líbano do que com um lituano, um sueco ou um eslovaco.
    A Europa é um conceito político que nasceu apenas quando se desagregou o Império Romano do Ocidente. Foi um espaço de violentas guerras durante séculos, muitas delas de base religiosa, e só com o iluminismo começou a lenta caminhada para que se tornasse num espaço de paz (e no entanto nos séculos XIX e XX sabemos como foram as coisas...). O confronto Leste-Oeste marcou na segunda metade do século XX o chamado "projecto europeu", que sem a União Soviética nunca teria evoluído como evoluiu.
    Não defendo o fim da União Europeia, mas pergunto - quiçá ingenuamente - se a Turquia tem mais razão para entrar na UE do que Marrocos, se um conceito geográfico vago e difuso como é a Europa (e nela cabe grande parte da própria Rússia) faz mais sentido do que um conceito claro e bem definido como é o de Mediterrâneo. E, sobretudo, recordo que é Rabat, e não Madrid, a capital que está mais perto de Lisboa. Advogado
    ............

    Mas entendo o VPV quando ele termina dizendo que não tenciona reincidir...

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 19:27, Blogger zazie said…

    triunfo ecuménico= no sentido de uma política expansionista que englobe estados fora do cerne religioso. Neutralizando os fundamentalismos.

    "A mistura do cristianismo (católico ou não) com a herança liberal produziu, como era de prever, uma nova religião secular, que se julga destinada a um triunfo ecuménico. O marxismo deixou descendência. "=

    sentido alegórico=

    ingenuidade que os leva a acreditar que numa capacidade paranormal que permitiria que a Europa, à custa do laicismo, trouxesse para ela sociedades profundamente diferentes.

    Chama-lhe descendência= crias, filhos de uma outra utopia que também acreditava que pela razão se chegava ao Homem Novo. E acrescenta-lhe que a este novo "marxismo"- de fim da História se acrescenta outra utopia teleológica (determinista)com base benefício do mercado= o liberalismo.

    (por acaso nesta boca foi certeiro e o Timshel até já fez comparações idênticas)

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 19:28, Blogger zazie said…

    Por isso, descendência quer dizer filharada. Ninhada, etc., etc.

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 19:29, Blogger zazie said…

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  • At 9 de dezembro de 2006 às 19:37, Blogger zazie said…

    Também se poderia chamar:

    Marx+Fukuyama="nova utopia que vai dar bode"

     
  • At 9 de dezembro de 2006 às 20:25, Blogger zazie said…

    Teleológico= orientado para um fim= determinístico. Vem de teleios= fim; final.

    Teológico= divino. Vem de teos= deus.

     
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