terça-feira, julho 27, 2010
Os românticos e a realidade subjectiva
As questões levantadas pela Bluesmile na conversa com a Alexandra Solnado, levaram-me a reler António Damásio e reanalisar a relação entre religião e ciência, na minha perspectiva humilde.

Dizia Bergson que (Damásio refere sempre William James, ter-lhe-à faltado ler o francês) a inteligência humana se sente à vontade entre os objectos inertes, especialmente entre os sólidos, onde a nossa acção encontra o seu ponto de apoio. Que os nossos conceitos foram formados à imagem dos sólidos, e a nossa lógica é a lógica dos sólidos, por isso, a nossa inteligência triunfa na geometria, na qual se revela o parentesco do pensamento lógico com a matéria inerte, onde a inteligência só tem de seguir o seu movimento natural, para ir de descoberta em descoberta com a certeza de que a experiência a segue, e lhe dará invariavelmente razão.
Mas há, entretanto, uma outra dimensão. Uma dimensão interna que podemos observar em nós mesmos, uma realidade completamente diferente, qualitativa, composta de elementos heterogéneos que não podem ser separados uns dos outros, porque se interpenetram – sensações, sentimentos, volições, representações. Mudo sem cessar. Damásio aventa a hipótese dessa mudança sem se perder a "identidade", ser fruto de dois tipos de consciência em simultâneo, a nuclear variável, e a alargada mais consistente. Mudo numa realidade livre das leis da física, porque sem espacialidade mensurável, com uma duração sem tempo definido, em constante fluir, totalmente dissociada do tempo cronometrado das ciências. A multiplicidade da corrente da consciência, não apresenta semelhanças com a multiplicidade distinta que forma um número. Será de admitir então duas espécies de multiplicidades, uma qualitativa e outra quantitativa. Essa outra dimensão dominada pelo afecto, seria, segundo Bergson, a faculdade da intuição.

Diz-nos agora Damásio que:
Teria sido razoável esperar que no início do novo século as ciências do cérebro tivessem incluído a emoção na sua agenda de trabalhos e resolvido os seus problemas. Porém, isso nunca chegou a acontecer. Pior ainda, o trabalho de Darwin foi esquecido, a proposta de James foi injustamente atacada e sumariamente rejeitada, e a influência de Freud fez-se sentir noutra direcção. Ao longo da maior parte do século XX, a emoção não foi digna de crédito nos laboratórios. Era demasiado subjectiva, dizia-se. Era demasiado fugidia e vaga. Estava no pólo oposto da razão, indubitavelmente a mais excelente capacidade humana, e a razão era encarada como totalmente independente da emoção. Eis uma viragem perversa na perspectiva romântica da humanidade. Os românticos colocavam a emoção no corpo e a razão no cérebro, mas relegou-se para as camadas neurais mais baixas, aquelas que habitualmente se associam com os antepassados que ninguém venera. A emoção não era racional, e estudá-la também não o era. (Damásio, O sentimento de Si)

Em suma, no século passado, a ciência em geral tornou-se a campeã da racionalidade – a verdade determinada a partir do discurso lógico – atribuindo-se a si própria o exclusivo da objectividade (identificada com o conhecimento válido), negando a cidadania do credível aos descendentes das filosofias da emoção e da vida – Kierkgaard, Nietzsche, Bergson – que foram os existencialismos e as fenomenologias do século XX. Irónica situação, pois a cultura científica da objectividade e da razão, é ela mesma descendente do domínio da filosofia, em particular do positivismo comteano, e da longa linhagem racionalista - mais do que em Descartes, o erro culmina em Kant - que com Hegel, chegou mesmo a identificar a razão com o real. Como consequência disso, negou-se à intuição da fé qualquer acesso ao real – já que, no Amor de Deus residirá a essência da emoção, digo eu – relegando-a para o obscuro campo do mito e da crendice. Irónica situação ainda, porque a autoridade da razão assenta numa crença também, a crença de que a realidade tem uma estrutura inteligível, supostamente explicável pelo o instrumento racional. Curiosamente, a Ciência assenta na fé... numa fé iluminista.
cbs

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posted by @ 6:07 da tarde  
6 Comments:
  • At 28 de julho de 2010 às 20:13, Blogger BLUESMILE said…

    Caro cbs:
    Sem grande tempo para responder com a profundidade necessária aos seus últimos dois textos, permita-me que discorde apenas da sua última observação:
    "Curiosamente, a Ciência assenta na fé... numa fé iluminista."

    O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Muitos referem como referência estrutural nesta revolução epistemológica coperniciana, o século XVIII, quando a ciência moderna ultrapassou o "conhecimento" intuitivo e mágico dos alquimistas e dos feirantes do sagrado, baseado, esse sim, na FÈ.
    Mas foi sobretudo no último século que este modelo de racionalidade teórica e prática consubstanciado na "ciência"se afirmou de modo hegemónico como modelo de conhecimento válido.
    Em boa verdade foi este modelo de racionalidade que permitiu as mais radicais transformações da história da humanidade. Começarei por coisas básicas que hoje nos parecem como algo adquirido, mas que são revoluções extraordinárias - a esperança média de vida das pessoas duplicou em apenas cem anos ( de 40 para 80 anos) e continua a aumentar, ano após ano. A mortalidade infantil, pela primeira vez na história da humanidade baixou para níveis irrisórios se comparada com níveis anteriores.O aumento populacional subiu quase astronomicamente, com uma enorme pressão demográfica da população humana à escala global, isto apesar da revolução do controlo efectivo da reprodução.Já nem falo da revolução agrícola, do transportes, das biotecnologias da reprodução,das novas tecnologias da informação.
    As novas tecnologias e biotecnologias remodelaram a face da humanidade e do próprio planeta. Chegámos à lua, em breve poluiremos marte..
    O modelo global de racionalidade científica (que não se limita à racionalidades experimental das ciências naturais nem ficou estanque no determinismo mecanicista da Física newtoniana)afirmou-se como modelo hegemónico de racionalidade precisamente porque permitiu resolver algumas questões essencias da sobrevivência humana de um modo eficaz, de uma forma extraordinária.
    Fé, sempre houve,assim como buscas de cura milagrosas. Mas uma coisa tão simples como a invenção e a aplicação dos antibióticos veio dar resposta a coisas tão essenciais como o terror de morrer por causa de uma simples cárie dentária infectada. Rezas à virgem, sacrifícios humanos, amuletos vários, não são capazes de substituír um antibiótico face a uam infecção bacteriana.
    È por isso que a Ciência não assenta na fé iluminista...

     
  • At 28 de julho de 2010 às 20:21, Blogger BLUESMILE said…

    Ainda a propósito das emoções convém não esquecer que e a sua "valorização" enquanto experiência subjectiva existencial, resulta da racionalidade científica, radicada precisamente no biologismo puro e duro, plasmado nas investigações experimentais das neurociências...

    Cordiais saudações

     
  • At 29 de julho de 2010 às 18:12, Blogger cbs said…

    Bergson diz qualquer coisa como isto, “há coisas que só a razão é capaz de procurar, mas que por si mesma nunca achará. E essas coisas só a intuição as acharia, mas nunca as procura.”
    Peço desculpa mas parece-me o conceito de fé que invocas muito primitivo – alquimistas e dos feirantes do sagrado, sacrifícios humanos, amuletos; fé nos termos em falo significa intuição, sendo certo que razão e intuição andam sempre juntas. Nenhum grande cientista deixou de ter intuições fulgurantes nas suas descobertas, o determinismo mecanicista só não ficou estanque, devido a essa faculdade humana para alem da racionalidade, se fossemos computadores ficávamos estanques… e racionais. E quando remetes para alquimistas, remetes para o estado da ciência experimental antes do salto, não era assim na filosofia, ai a razão imperava – de Aristóteles a Tomas.
    É a fé que designei de iluminista – porque foi mito que o saber libertaria instantaneamente o homem e assim não sucedeu, basta recordar as ideologias totalitárias – essa fé existe sim: e a convicção racionalista de que o Universo e compreensível pela inteligência humana. É nessa crença que se baseia o conhecimento científico. E essa crença está por provar – aqui há-de valer a pena recorrer a um magnífico chato chamado David Hume e ao seu argumento contra o principio da causalidade e a noção de causa e efeito.

    não ha pressa, vai-se conversando, ouvindo, dizendo e aprendendo
    abraço

     
  • At 5 de junho de 2015 às 09:50, Blogger Dongdong Weng said…

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  • At 8 de julho de 2015 às 09:35, Blogger Meiqing Xu said…

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  • At 21 de junho de 2016 às 04:01, Blogger 柯云 said…

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