quinta-feira, março 12, 2009
Uma ocasional circunstância
O leitor foi ali parar por passeio de busca acerca de Fernando Pessoa, e sendo um sem pressa de carácter e estilo, foi lendo os textos, até porque não sendo cristão, suscitou-lhe uma indolente mas interessada curiosidade aquilo de um blogue de protestantes e católicos. A maioria das coisas deixaram-no indiferente, e nem as percebia muito bem, quer-se dizer, não conseguia focar o tipo de preocupações que habitavam aqueles discursos todos. Irritou-se profundamente com um tipo chamado Vítor Mácula, que depois de fazer uns esclarecimentos etimológicos, religiosos e culturais com algum saber, respondera a uma ou um Zazie que ele, o Mácula, era afinal um ignorante acerca do assunto, exprimindo aquela detestável humildade vaidosa que põe qualquer um de pé atrás, como quando alguém melifluamente não agradece um elogio ou um agradecimento dizendo que não o merece. E depois o nome, que pedanteria atroz. E ele bem sabia, embora não fosse muito de ir à net, a não ser de vez em quando em pesquisas que raramente lhe traziam o que procurava do modo que precisava, que esta malta dos blogues tinha a mania das alcunhas. A outra ou outro também não devia chamar-se Zazie, supunha, mas era uma alcunha simpática, assim um pouco cinemateca, mas com um tom brincalhão e simpático. Agora, Vítor Mácula, que raio era aquilo, parecia o nome de um super-herói de pacotilha, mostrando tão bem a jactância que se escondia por trás dum certo saber escrever e conhecer.

Depois, bem depois, deu por si a pensar naquela tradição do judaísmo e cristianismo e afins, que ele não conhecia muito, mas que sabia merecer melhores discursos do que certos teatros de egos às cabeçadas. Realmente, aquilo do saber ancrava-se na tradição daquilo que os como ele, chamavam de religiões do livro, mesmo sabendo que eram vários livros e várias religiões. Lembrou-se dum provérbio árabe que dizia que o diabo se escondia na matemática. Lembrou-se do alarme de morte em comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Lembrou-se da noção de não-saber que atravessa a história de todo o misticismo. É verdade, pensou, que não saber não é mal algum, como referira um tipo lá do blogue, um tal de João Leal (bolas, estes nomes, Leal a quem? A Deus? Seria mesmo um nome ou uma alcunha? É que ainda por cima havia outro Leal lá no meio, um tal de Pedro. Ou seriam leais um ao outro?) Bem, acabou por rir-se, e voltou às suas considerações indolentes: enfim, pensava olhando para o tecto e fumando um cigarro, é verdade que o saber por definição pode sempre incorrer num erro de informação, análise ou especulação. Não que o saber fosse um mal por si, claro, era evidentemente um bem, mas sem dúvida igualmente um perigo. É com muito cuidado que devemos mexer nessa faculdade maior da reflexão, que, é certo, faz de nós humanos, mas que por isso mesmo, abre as portas do céu e do inferno. E a jactância, melíflua ou exposta, é sem dúvida filha do demónio. Porque saber ou não saber algo, nunca fez mal a ninguém. Agora pretender saber o que não se sabe, como a humanidade passava a vida a fazer, de que fonte poderia isso provir senão dum enorme orgulho, dum enorme fazer-se passar por aquilo que não se é afim de ter o poder ilegítimo de cagar juízos e sentenças, decisões e acções na pura treva?

Depois parou, suspirando. Notou que afinal aqueles cabeçudos do blogue de que ele nem se lembrava o nome, talvez até o tivessem atingido. Pois tinham-no irritado e divertido um pouco. E sobretudo, posto a pensar em coisas da religião, a ele, que há anos não dedicava um avo de interesse a tal coisa.

vítor mácula
posted by @ 1:44 da tarde  
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Um blogue de protestantes e católicos.
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