segunda-feira, junho 02, 2008
Cor nostrum
O que és tu, meu Deus? Sei que és o infixável, o sussurro que percorre todos os momentos e coisas e por vezes, oh quão tanto e apenas por vezes – mal me tocas e eu fujo. E sei quão pouco és dessas fugazes impressões da minha carne anestesiada, que sugerem mais a tua ausência em mim do que a tua presença viva nos dias e nos sentidos.

O que és tu, meu Deus? Sei que estás substancialmente nas espécies eucarísticas, e que és o laço que fulgura em toda a abertura amorosa que nos dilacera perante um céu estrelado ou um rosto humano, uma mancha ocasional na parede ou o som do vento agitando os cortinados. Sei que és a beleza negada do mundo, e sei também que és na morte que me contempla e acolhe desde antes de eu sequer ter nascido. Sei que és na incarnação e no corpo místico. Mas tudo isto são formas incompreensíveis de te saber. Sei que te sei sem te saber. Porque e como me chamas não sei, mas sei que não o fazes directamente naquilo para que me dirijo, igrejas e sociedades, clubes e ideologias, identidades e confrontos, saberes e poesias, tecnologias e contratos. Como e porque me chamas não sei, meu Deus, a mim que de algum modo – de ti, certamente – amo a vida e nem por isso, o aqui estar no escorrimento dos dias e das noites, na deflagração e soçobro em que tudo acaba por se nadificar, sem antever sequer um pequeno motivo ou horizonte que a tal dê sentido.

O que és tu, meu Deus? Sei que podes tão marcadamente afirmar-te na tessitura das coincidências e discordâncias, e tão mascaradamente indefinir-te nessa mesma tessitura. Que podes em viva voz penetrada na minha revelar-me sinais e sentidos e nunca te esgotares neles. Que podes em ocorrências mostrar-te e guiar-me, numas simples palavras vindas do televisor no café e recontextualizadas em mim tão gritantes e confusas, ou num texto teológico trazido à minha ansiosa mente numa conferência ou pousado a meu lado no banco do autocarro onde me sento. Que te mostras e apelas nos confirmadores e contraditores e indiferentes – mas que mal volvo a atenção para te fixar, te propulsionas em suspeita e procura e desejo. Sei que te realizas em mim em toda a ternura e força com que me disponho a acolher a vida e a morte, em todo o esquecimento e consciência com que me disponho a crescer com os outros, com as plantas, com os animais, com as coisas, e sobretudo em todas as disposições que me cindem em bem e mal, justiça e injustiça, beleza e tédio, merda e maravilha – e em que cegamente toco a carne de que sou feito e assim chamada a trabalhar-se, a edificar-se, a reunir as asas e a queda nessa indizível linha que ambas supera.

O que és tu, meu Deus? Sei que és a resposta silenciosa à muda pergunta de que fujo mal sou e existo, e que não descansarei enquanto a minha vida inteira não assentar no teu mistério.

Vítor Mácula
posted by @ 11:49 da manhã  
4 Comments:
  • At 2 de junho de 2008 às 12:03, Blogger cbs said…

    "merda e maravilha"

    poeta :)

     
  • At 3 de junho de 2008 às 00:44, Blogger cbs said…

    "Eu não posso sentir no âmago da minha alma uma religião ou irreligião a que não aderi"

    "O que és tu, meu Deus? Sei que és a resposta silenciosa à muda pergunta de que fujo mal sou e existo, e que não descansarei enquanto a minha vida inteira não assentar no teu mistério"

    ...pois claro e escuro LOL,digo eu :)
    abraço em Cristo mano

     
  • At 5 de junho de 2008 às 15:32, Blogger Vítor Mácula said…

    Uma breve nota: tudo depende dos termos, do seu significado e relação, mas atente-se à confusão entre intuição do sagrado e religião: a primeira consiste na consciência confusa da separação, da fractura; e a segunda, pretensa reparação.

    abraço em Cristo, na fractura e na reparação

     
  • At 5 de junho de 2008 às 19:48, Blogger cbs said…

    concordo

     
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