terça-feira, julho 06, 2010
CREIO PARA COMPREENDER
Nuno: Creio para compreender, foi o que eu disse.

O dito de Santo Agostinho de Hipona (Tagaste 354-430) “eu creio para compreender e compreendo para crer melhor” (intellige ut credas, crede ut intelligas) é expresso no célebre Sermão 43.
Ao que parece, este aparente paradoxo do binómio razão e fé já era atribuído ao profeta Isaías “Se não credes, não compreendereis” (Nisi crediteritis, non intelligetis) na tradução grega da Bíblia dos Setenta. Neste caso é que parece ter havido uma tradução incorrecta, não em Agostinho.
Parece ter sido precisamente com Agostinho que nasceu a célebre (e aparentemente paradoxal) formula que consubstancia a fusão entre a razão grega e a fé judaica – marca do cristianismo, uma das marcas essenciais da civilização dita ocidental. De qualquer forma, Agostinho não se cansa de retomar a formula, disso não há dúvida – segundo Gilson a que melhor define a filosofia cristã – como no Comentário ao Evangelho de João “Não procures entender para crer, mas crê para entender, porque, se não credes, não entendereis”.
A síntese agostiniana expressa por excelência no referido Sermão 43, significa que compreendendo aquilo em que se deve crer, cremos, e, crendo, podemos compreender aquilo em que cremos. Se por um lado, é preciso partir da fé, por outro, é dever de quem crê, buscar inteligir aquilo em que crê, pois o fim último do Homem não é crer, mas conhecer!

O dito de Santo Anselmo de Cantuária (Aosta 1033-1109) “Não busco compreender para crer, mas creio para compreender” é expresso no cap. I do célebre Proslógio (1078). Faz parte dum discurso para garantir a existência de Deus, mas... a quem já crê, e não aos outros, sendo a base do célebre argumento de Santo Anselmo sobre a existência de Deus. Percebendo que esse argumento só funciona quando amparado pela Fé, Tomás de Aquino, contesta a racionalidade do mesmo, partindo daí para as suas Summas e famosas cinco demonstrações racionais, firmadas na evidência, como a lógica racional exige.
Mas eu penso, com Agostinho e Anselmo, que não se compreende para crer – posição racionalista, que nos leva o Déismo, ao deus abstrato – mas crê-se para compreender, parte-se da aceitação a priori, da Fé.
Quem não experienciou por si a conversão, estranhará sempre algo no pensamento cristão, que nela se fundamenta. A conversão é o pressuposto do pensamento agostiniano (como também de Anselmo), porque só através dela a fé dada por Deus, e torna o pensamento independente de qualquer doutrina ou ideologia. O que de nenhum modo afasta a racionalidade, antes a ilumina.
Os maniqueístas tinham-lhe prometido levar à fé pelo conhecimento racional das Escrituras; mas Agostinho inverte, propõe-se alcançar pela fé, a inteligência do que as Escrituras nos ensinam. E juntamente com essa forma de pensar, induz-nos também uma nova forma de viver.
cbs ao Nuno
Biblio:
Comentário ao Evangelho de João. In REALI, Giovanni. ANTISERI, Dário. Hist´roia da Filosofia: Patrística e Escolástica. Paulus 2005
GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. Martins Fontes 1995

Etiquetas: , ,

posted by @ 1:07 da manhã  
80 Comments:
Enviar um comentário
<< Home
 
 
Um blogue de protestantes e católicos.
Já escrito
Arquivos
Links
© 2006 your copyright here