segunda-feira, junho 15, 2009
Da Imaculada Conceição 2
Num tempo em que a maioria dos teólogos da Escolástica era contrária à doutrina da Imaculada Conceição porque, transmitido por geração carnal (o tema da carne infecta); Duns Escoto não se limita a declarar a sua opinião, mas procura fundar mais solidamente a sua verdade, integrando-a num contexto doutrinal mais vasto como é a doutrina do primado absoluto de Cristo, primogénito de todas as criaturas, principio e fim de tudo quanto existe.
A síntese teológica de Duns Escoto assenta neste principio fundamental – Deus est rationabilissime volens – o que significa que a razão, a ordem, a sabedoria são a regra do Querer ou Amor infinito, que preside à criação de tudo quanto existe fora de Si.
Duns Escoto pôs assim como base da reconstituição do real, ou seja, da ordem actual, a Encarnação do Verbo de Deus, obra-prima – summum opus – do amor de Deus Pai. É em função deste mesmo principio – a vontade divina soberanamente racional e ordenada – que desenvolve toda uma argumentação em favor da Imaculada Conceição, refutando, de caminho, as principais objecções da tese contrária (Ox. III D. XXXII) perante as quais São Bernardo, São Boaventura e Santo Tomás de Aquino, por exemplo, recuaram.

Mas é evidente que Duns Escoto teve precursores que lhe forneceram elementos que desempenham papel fundamental na sua argumentação. E foi sobretudo em Oxford onde ensinava Guilherme de Ware, seu mestre, que lhe veio maior abundância de inspiração e consistência doutrinal. Com efeito, depois de ter exposto a doutrina comum tese Maculatista – Guilherme acrescenta: segundo uma outra opinião, Maria não contraiu o pecado original; é esta a opinião que eu defendo, porque se me enganar, não estando certo da opinião contrária, prefiro errar por excesso (superabundância) atribuindo este privilegio a Maria, a errar por defeito, diminuindo ou recusando-lhe qualquer prerrogativa (AA.VV. …quaestiones disputatae de immaculata conceptione…, Quaracchi, 1904, p. 4).
Guilherme de Ware
demonstra possuir já, em substância, o famoso silogismo posteriormente atribuído a Duns Escoto: potuit, decuit, ergo fecit; pôde, convinha, portanto fez. Convém que o filho honre a sua mãe e aquilo que Ele pôde fazer convinha que o fizesse, segue-se que o fez, porque um filho deve honrar a sua mãe, mas na explicação que dá, prisioneiro ainda da doutrina agostiniana da transmissibilidade do pecado original pela infecção da carne, decide-se mais por uma santificação do que por uma redenção preservativa.
A solução definitiva do problema estava reservada a Duns Escoto que, apoiado em S. Anselmo, rejeita liminarmente a teoria da transmissão física do pecado original, dizendo que este é de ordem moral e não física, que reside na vontade e não na carne. Residindo na alma, basta que no primeiro instante da sua existência Deus preserve Maria de toda a mácula original para que seja imaculada (Ox. III d.3 q.1 n.9)

O grande mérito de Escoto consiste em ter recolhido e sistematizado os elementos dispersos, defendidos por alguns teólogos que o precederam, e com eles construíram uma síntese doutrinal definitiva, que não só salvaguarda o principio da universalidade da redenção do pecado original, mas exalta ainda os méritos de Cristo na Sua função de Salvador único, pois Cristo é medidor da Graça não só quando purifica do pecado já contraído, mas mais perfeitamente ainda quando preserva do pecado original, contraído pelo resto da humanidade. De facto, é mais perfeito preservar do que libertar a pessoa amada depois de ela ter caído.
Do mesmo modo e pelos mesmos motivos, cai igualmente por terra a objecção de alguns teólogos segundo os quais a Imaculada Conceição de Maria retiraria alguma coisa à honra e glória de Cristo, que desse modo ficava privado do mérito de ter resgatado a Sua mãe. Ora não só a resgatou como o faz de uma maneira mais perfeita e mais digna do Seu Amor.

Manuel Barbosa da Costa Freitas por cbs
posted by @ 11:57 da tarde  
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