sábado, fevereiro 09, 2008
Get in the ring
O truque do Luís é antigo (acho que tem a ver com o boxe): obrigar-nos a ir às cordas. Aos extremos. E depois, encurralados, aviar-nos à grande e à romana. Só que o Luís tem de recordar-se que para além da Bíblia os protestantes também lêem a História. E que nem tudo na vida se resume a um oito e oitenta (por muito que isso nos facilite a retórica). A ironia, e aqui como o chapéu, é que quem se diverte é o Pedro Leal. "Não querem ser amiguinhos? Então levem com a presunção vaticana", pensará com razão. E apesar do Luís ser o meu católico preferido, é-o também porque me recorda do privilégio que é ser protestante.
O tal truque do Luís é especialmente bem sucedido em países mediterrânicos porque: A) conhecem muito pouco de religião; B) conhecem muito pouco de religião que não seja de origem católica. Assim, o Luís diz que "ou Roma ou nada" e as pessoas, mediterrânicas, claro, são levadas a acatar. O que o Luís terá é de explicar o lugar do ritual antes do bom Tomás de Aquino o normalizar sacramentalmente na Suma Teológica de 1113. O expediente é antigo: assim como há protestantes convictos de que o cristianismo hibernou até acordar em 1517 às portas de Vitenberga outros católicos asseveram a pés juntos que a coisa só começou condignamente após o Espírito ser traduzido em versão tomista.
Valeria a pena continuar até às questões mais longínquas que a discussão acorda: o que é realmente o sacramento e, perdoem-me a expressão, que raio é isso da presença corpórea de Cristo na Eucaristia? Claro que tínhamos de passar pela universalização romana, pelo papel atribuído à Igreja, pela Graça versus Lei, pela uniformização política que uma administração terrena da Salvação pelos sacramentos permite, pelas barbas do Calvino e pela eloquência carismática dos pentecostais em relação ao polido auto-convencimento católico do mistério da missa. E, já agora, e porque o Luís acorda o velho e anacrónico baptista que há em mim, pelo que dizem as Escrituras sobre a vida na Igreja (continuamos a estudar os Actos dos Apóstolos em S.Domingos amanhã, amigo).
Claro que para o Luís "o Pedro encarna mais a ambição evangélica de despojamento de rituais e imagens" porque encarna mais a ambição evangélica de despojamento de rituais e imagens que mais convém ao Luís para minimizar a pertinência litúrgica protestante não-sacramental. O Luís, astuto no ringue, sabe que os truques nos fazem ganhar combates quando os adversários estão distraídos. Mas desta vez o Luís terá de se recordar que:
1. o cristianismo existiu antes de 1113, peno de rituais e da presença do Espírito
2. apesar da Tradição e Magistério assumidos pela Igreja Católica qualquer boquinha se abre para a hóstia porque o dono da boquinha subjectivamente para isso de dispôs e contra isto batatas (nem o Cristo no altar desce para empurrar o seu corpo, so you say, pela garganta abaixo do fiel)
3. tornar indissociável o ritual do sacramento do foi um uppercut que me falhou os queixos.
Com isto tudo ainda tenho um sermão para refinar. Cheers, bom amigo!

Tiago Cavaco
posted by @ 11:08 da tarde  
5 Comments:
  • At 10 de fevereiro de 2008 às 00:07, Blogger Luís said…

    Tiago és tu que te desvias do assunto agora.

    A minha intenção não era explicitamente discutir a natureza dos sacramentos (que sim, levar-nos-ia muitíssimo tempo) mas sim discutir a sua ligação com um culto organizado. E ainda não me explicaste onde é que existe um culto organizado seguindo padrões normativos que não tenha de alguma forma ou de outra uma valorização sacramental. Dêem-me um exemplo real e eu calo-me já com a ligação que estabeleci.

     
  • At 10 de fevereiro de 2008 às 00:19, Blogger Tiago Cavaco said…

    Luís, tu é que te desviaste do assunto. Who cares about padrões normativos? Ou o ritual precisa de padrões normativos? Quererás debater o tema para além da normatividade romana que tem metade da idade da nossa fé? Respeitável, mas não monopolizadora.
    O culto protestante não-sacramental é organizado (leitura da Palavra, pregação da Palavra, oração pública e canto) e não precisa de sacramentalidade.
    E que tal responderes tu agora às minhas perguntas? O que é um sacramento senão uma subjectividade tão humana, respeitável e débil quanto o arrebatamento num qualquer salão pentecostal? Vós, católicos, não deviam dar-se ao luxo de pôr o Aquino a ajudar o Espírito Santo. Ele desenrascava-se sozinho, digo eu.

     
  • At 10 de fevereiro de 2008 às 00:33, Blogger Luís said…

    Tiago, qual é a expressividade desse culto? Culto protestante não-sacramental e organizado pratica-se a larga escala por alguma denominação? O que eu defendo é que é a natureza sacramental que impede que o celebrante ceda à tentação natural de mudar o jogo todo, porque o faz aperceber-se do que realmente está em jogo ali. As igrejas evangélicas não são precisamente feitas de cisões pelas mais pequenas coisas, entre as quais se encontram "sensibilidades diferentes" que necessariamente se reflectem em práticas litúrgicas conforme a vontade do pastor? E a vossa própria eclesiologia não incentiva isso, definindo a autonomia da igreja local? Da igreja local por si própria só pode vir algo amador e feito em cima do joelho, a menos que o pastor seja uma figura extraodinária (como as há entre vocês, mas o que faz a igreja bestialmente dependente do pastor). E se o culto é um mero louvor, bom isto cada um louva como quer e porque raio quererás cortar a suposta espontaneidade do louvor?

    Repito a pergunta, quem é que adopta esse culto protestante não-sacramental organizado?

    Quanto à natureza dos sacramentos o assunto é fundamental para o diálogo ecuménico e é demasiado central para que to possa responder sem a devida reflexão prévia, pelo que deixo para amanhã um post sobre o assunto, mas ele concerteza que virá.

     
  • At 12 de fevereiro de 2008 às 11:31, Blogger David Cameira said…

    Bom dia Luis,

    Dsc meter-me na tua troca de ideias com o Tiago Cavaco mas gostava que me explicasses pq razão: " que necessariamente se reflectem em práticas litúrgicas conforme a vontade do pastor? "
    E depois, de forma algo contraditória com esta 1ª premissa, postulas:
    E a vossa própria eclesiologia não incentiva isso, definindo a autonomia da igreja local? "

    Finalmente:
    " Da igreja local por si própria só pode vir algo amador e feito em cima do joelho "

    Esta então é que é de fugir...ou não, porque o espanto e a dúvida são características MÁXIMAS do pensar filosófico....

    Mas então O ESPÍRITO DE DEUS não está presente na " igreja local por si própria " ?

    Mas tu não acreditas na Democracia ?
    Então a democracia não é o governo do povo, por si próprio !!!!
    ALIÁS, na Igreja de Cristo ela nunca está, a solo, mas antes sempre aconselhada e amparada pelo ESPÍRITO SANTO( tt mais qt seja fiel á BÍBLIA ).

     
  • At 12 de fevereiro de 2008 às 12:28, Blogger Hadassah said…

    A diferença é essa David...depósito total de confiança no Espírito Santo. Devemos dar-lhe liberdade de actuação e ao longo dos meus anos de cristã evangélica, tenho visto Pastores a ser usados com uma unção espiritual de tal ordem que só pode ser vinda do Espírito de Deus.

    A pregação sem a unção do Espírito Santo, por muito estruturada e teóricamente rica que seja, não tem o mesmo impacto na vida dos ouvintes, como a que é inspirada pelo Espírito Santo. É vazia.

     
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