segunda-feira, janeiro 21, 2008
E às vezes o ecumenismo é um filme.

Gertrud caminha no fio da navalha, na fronteira ténue que separa o amor como dádiva total do amor como diluição fácil e ansiada no outro. Não se contentando com a mediocridade do amor "razoável" (o qual a nossa era, cheia de psicanálises e diagnósticos de patalogias interiores, parece patrocinar como o amor dos "esclarecidos" num patético simulacro de sentimentos) nem tão pouco se perdendo no amado de tal forma que a vocação amorosa se torne numa horrorosa e tão frequente caricatura destrutiva e cega do que seria elevado, dir-se-ia que Gertrud pretende realizar o impossível equilíbrio.

Este é O filme sobre o amor. Diria também que é O filme feminista no que a palavra tem de mais essencial. Talvez não seja por acaso que a peça na qual se baseia é de Söderberg, autor sueco, de um país onde a mulher já na época alcançara um estatuto que permitia saltar fora das convenções de ambos os lados da barricada sobre o que esta deve ser. É um filme que qualquer cristão, aliás, qualquer ser humano que se propõe a esta difícil empresa deve ver e rever com devoção. Não o posso recomendar o suficiente.

E passa na Cinemateca amanhã às 21h30.

Luís
posted by @ 7:48 da tarde  
3 Comments:
  • At 25 de janeiro de 2008 às 16:07, Anonymous frequentadora da cinemateca said…

    Repete hoje, dia 25 de janeiro na cinemateca às 19.30.

    E obrigado pelo post, acho que ecumenismo é também isso.

    Uma pergunta, esse tipo de amor, só é buscado (ou alcançado) pelas mulheres?

     
  • At 25 de janeiro de 2008 às 20:09, Blogger Luís said…

    Julgo que esse amor é de certa forma procurado por todos e alcançado por ninguém (inclusive a própria Gertrud no filme, embora seja discutível se a sua solidão final não é o derradeiro passo nessa busca e aí julgo que entra também o religioso). O que me parece extraordinariamente belo é a pureza e a centralidade da busca, o que aliás é uma característica dos filmes do Dreyer (este filme é tanto sobre o amor como Ordet é sobre a fé).

    Para mim o facto de ser uma mulher o que tem de virtuoso é que derruba as concepções ortodoxas da emancipação feminina e propõe a verdadeira emancipação de ambos os sexos, nesse paradoxo que é o amor gratuito mas livre. Esse paradoxo é aplicável a ambos os sexos e daí a centralidade do filme. No que poderão variar cada um deles será provavelmente no tipo de distorção para a qual naturalmente se inclinam, e mesmo aí tenho dúvidas.

     
  • At 25 de janeiro de 2008 às 20:49, Blogger Luís said…

    De qualquer forma não há nada pior do que teorizar sobre uma obra de arte. É linda e isso é tudo o que importa saber.

     
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