quinta-feira, fevereiro 22, 2007
qualquer coisa de católico
I. Não consigo dar uma resposta clara à pergunta do Tiago Oliveira. Também eu me encontro perplexo com a fragilidade da formação religiosa entre os católicos (o que obriga os padres a um constante relembrar da doutrina básica durante as homilias) e com a ligeireza com que qualquer um se diz católico.
O Marco Oliveira mostrou-nos um resumo de uma reportagem do "Le Monde des Religions" que, sob o título «Quem são os católicos franceses?», apresenta um panorama desolador e que não deve andar muito longe da realidade portuguesa. Uma sondagem realizada no final de 2006 analisava o número dos católicos em França, bem como as suas convicções e atitudes face à Igreja. Destaca-se o facto – positivo, em meu entender – de pouco mais de 50% dos franceses se identificarem com o Catolicismo e se identificarem como católicos. Mas destes, apenas 20% se consideram "praticantes". Começa aqui a minha incompreensão da nomenclatura. Nunca percebi o que é um "católico não praticante". Não consigo distingui-lo de um budista não praticante ou de um revolucionário não praticante ou de um escritor não praticante. A não-prática é comum a todos eles e, se há coisa que deve distinguir os católicos, para além da fé, é precisamente a prática.
No que toca às convicções, a referida sondagem também apresenta resultados curiosos. Apenas 26% afirmam com segurança que Deus existe e outros 26% acham a hipótese provável. Ou seja, apenas 52% dos inquiridos, que se identificaram como católicos, acreditam na existência de Deus! E dos retrógrados conservadores que acreditam em Deus, apenas 18% acreditam num Deus pessoal (precisamente um dos pilares do Cristianismo). Influenciados pela espiritualidade místico-gasosa da new-age, 79% acreditam em Deus como uma "força" ou uma "energia". E, por fim, de entre os inquiridos que se identificam como católicos, apenas 17% cento vão regularmente à missa e só 27% rezam com alguma frequência.

II. Tem razão, o Tiago. Sob a capa da diversidade que enriquece e enobrece a Igreja, esconde-se um relativismo que pouco terá de cristão. As razões estão bem expressas na tal nota pastoral que tanto irritou o Miguel (de cuja fé e honestidade não duvido e a quem não pretendo de todo associar a esta minha perplexidade: tomara eu ter metade da militância católica do Miguel): «esta mutação cultural tem várias causas, nomeadamente: a mediatização globalizada das maneiras de pensar e das correntes de opinião; as lacunas na formação da inteligência, que o sistema educativo não prepara para se interrogar sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano; o individualismo no uso da liberdade e na busca da verdade, que influencia o conceito e o exercício da consciência pessoal; a relativização dos valores e princípios que afectam a vida das pessoas e da sociedade.»

III. Mas, então, o que define um católico? O que diferencia um católico de alguém que professa uma outra religião? Quem conceba o catolicismo como uma religião como outra qualquer (o que, na prática, é a noção da maioria dos próprios católicos), vê o catolicismo como uma doutrina religiosa consubstanciada num mero conjunto de regras de comportamento social, comum, aliás a outras religiões como a judaica, a muçulmana, etc. Mas há diferenças essenciais. Trata-se de uma vida nova, na participação na própria vida íntima de Deus: a vida da graça que principia no sacramento do Baptismo.
Tudo começa pela crença que o Filho de Deus se fez homem e habitou entre nós, morreu e ressuscitou, vencendo a morte. E que, por Ele, somos levados à Redenção. Esta crença não pode deixar de provocar uma transformação profunda na vida de quem crê. O olhar para o mundo, para os outros (os irmãos, porque filhos de um Pai comum), para si próprio, está irremediavelmente contaminado pela crença neste Deus que supera a morte. Por causa dEle, a Igreja, enquanto comunidade de crentes, convoca cada cristão a ter uma vida cristã plena, não apesar de, mas precisamente por estar no meio do mundo, no seu trabalho, no estudo, na vida de família, no relacionamento social, político, etc. Cada cristão é chamado - é a sua vocação - a reproduzir na sua vida a vida de Cristo.
É este o nosso credo, em suma:
Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por Ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos. Padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras. E subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai, para julgar os vivos e os mortos. E o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Ele que falou pelos Profetas.
Creio na Igreja una, santa, Católica e apostólica. Professo um só Baptismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos, e vida do mundo que há-de vir. Amen.


IV. Voltando ao texto dos bispos: «Esta verdade iluminadora das consciências provém de um sadio exercício da razão, no quadro da cultura; é-nos revelada por Deus, que vem ao encontro do ser humano; é património de uma comunidade, cuja tradição viva é fonte de verdade, enquadrando a dimensão individual da liberdade e da busca da verdade. Para os católicos, a verdade revelada, transmitida pela Igreja no quadro de uma tradição viva, é elemento fundamental no esclarecimento das consciências».
Daqui decorre a importância das coisas que, para espíritos mais relativistas, são acessórias. Como a Missa. Na Missa exerce-se de modo único aquela união com Cristo-Cabeça da Igreja e dos crentes. E "por Cristo, com Cristo e em Cristo" somos levados ao Pai - O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Missa são um único sacrifício: «A mesma e única Vítima, o mesmo e único Sacerdote que, pelo ministério dos padres, se oferece agora como se ofereceu na Cruz. A única diferença é o modo de oferecer: então, de maneira sangrenta; sobre o altar, de maneira incruenta» (Catecismo, 1367).

V. Por isso – e por, com tristeza, reconhecer razão à crítica do Tiago Oliveira –, me vejo perante discursos de alguns católicos, como o Nanni Moretti no seu filme Abril, quando vê na televisão o debate entre Massimo D'Alema e Sílvio Berlusconi. Ansioso e inconformado com o desempenho de D'Alema diante dos disparates de Berlusconi, grita, num misto de raiva e vergonha: «Reage, D'Alema! Responde alguma coisa, reage! Diz alguma coisa de esquerda!».
É isto que se espera dos católicos: que (vivam e) digam qualquer coisa de católico.

Carlos Cunha
posted by @ 11:36 da tarde  
5 Comments:
  • At 23 de fevereiro de 2007 às 00:25, Blogger cbs said…

    É curioso Carlos... pensando...
    estou de acordo e adiro ao essencial do que dizes, e digo essencial, apenas porque o conteudo me ultrapassa, obriga-me a reflectir mais.

    Mas quero manifestar aqui uma coisa, focar um sentimento, que talvez até seja estranho, mas... quando nos encontramos, católicos, protestantes, heréticos or wathever :)
    aquilo que sinto, que se sente é antes do mais uma comunhão entre Cristãos (o que por sinal afaga bastante o meu tosco basismo)

     
  • At 23 de fevereiro de 2007 às 10:30, Blogger Scott said…

    1 Coríntios 3:5 (O Livro)
    Porque, afinal, quem sou eu, e quem é Apolo? Não somos nós apenas servos de Deus, cada um com a capacidade que o Senhor lhe deu, e por intermédio de quem se tornaram crentes?

    Por vezes nos deixamos guiar pelo que não interesse. Há muita coisa que nos possa separar mas "O" que nos une é sempre maior, não é?

     
  • At 23 de fevereiro de 2007 às 12:33, Blogger Miguel Marujo said…

    a nota pastoral irritou-me por isto:
    http://cibertulia.blogspot.com/2007/02/
    carta-aberta-uns-senhores-que-no-me.html

    E lateralmente, não querendo fazer deste espaço debate do que não está em causa no texto do Carlos, sobre o que me irrita em particular traduz-se nas palavras de um amigo, que escrevia sobre esta (minha/nossa) irritação:
    «Preocupante é também o tom do recado para os católicos que estiveram do lado do Sim: "Aos católicos que, no aceso deste debate, se afastaram da verdade revelada e da doutrina da Igreja, convidamo-los a examinarem, no silêncio e tranquilidade do seu íntimo, as exigências de fidelidade à Igreja a que pertencem e às verdades fundamentais da sua doutrina." Definitivamente, o pluralismo está banido nesta matéria, a diversidade é uma infidelidade grave, porque o Não é assumido, sem hesitações, como a única expressão da verdade revelada. Doi-me que se veja a nossa posição unicamente na óptica do afastamento e não haja a mínima preocupação em interrogar os fundamentos cristãos de quem viu no Sim a resposta mais adequada. O que se seguirá a este "convite"?...
    Enfim, nada entusiasmante é ainda o tom das reflexões sobre a educação sexual. A vertigem obsessiva da "vivência desregrada da sexualidade" como "uma das principais causas das disfunções sociais e da infelicidade das pessoas" deixa entender que nada de novo virá neste domínio. Anima-me apenas ver reconhecido que "quando a geração de um filho não for fruto de irreflexão, mas de um acto responsável, estará resolvido, em grande parte, o problema do aborto".»

    Se há aqui questões essenciais, do modo como somos igreja, há um debate que continua.

     
  • At 23 de fevereiro de 2007 às 18:40, Blogger knit_tgz said…

    Miguel, como comentei no teu blogue, não interpretei essa frase como arrogante, porque não a interpretei como tu. Sinceramente, concordo que a posição coerente com as "verdades fundamentais da doutrina" é o voto no "Não", mas parece-me perfeitamente possível que católicos sérios, praticantes (não "católicos culturais") tenham votado "Sim" sendo fiéis à sua consciência cristã e católica e depois de muito meditarem. Não queiras que eu acredite que ambos temos razão (só um dos votos pode ser melhor, não pode ser melhor o "Sim" e o "Não" ao mesmo tempo), mas acredito que houve católicos que votaram no "Sim" por estarem convencidos de que "as mulheres que querem abortar, vão abortar seja legal ou não. O feto já está perdido, vamos evitar os danos à mulher, e se houver aconselhamento pode ser até que se consiga evitar que alguns desses abortos aconteçam". Acredito que aqueles que votaram "Sim" por uma convicção dessas podem perfeitamente ser católicos sérios e praticantes, embora discorde deles e acredite que o meu sentido de voto é que vai mais de acordo com o que cremos.

    Julgo que a frase dos bispos, como te disse no teu blogue, não se dirigia a ti, mas àqueles que, não pertencendo à Igreja para o que dá trabalho (participação nos sacramentos da vida comunitária [missa e confissão, por assim dizer], trabalho caritativo, ajuda aos que sofrem, defesa do pobre e do oprimido, oração, meditação da Palavra, exame de consciência para que a conversão da nossa vida seja contínua, para que abandonemos o homem velho), aqueles que não tentando fazer isto ainda assim se dizem católicos só para poderem mandar uns bitaites e criticarem.

    Quanto à educação sexual... Caro Miguel, é algo essencial, numa sociedade em que os pais não educam os filhos para a sexualidade (idealmente eram os pais que o fariam), mas não me parece que deva haver uma "disciplina" só para isso. Acho que a educação para a sexualidade deve estar no currículo escolar, incluída na Biologia (a parte biológica e relativa a gravidez e doenças) e na Filosofia ou Psicologia e, se existir, na educação Religiosa (a parte relativa à sexualidade como fenómeno relacional humano). Mas compreenderás que é complicado porque, a não ser na cadeira de Religião, tem de se conseguir um equilíbrio a falar das várias maneiras de ver este mesmo assunto sem contudo se ofender aqueles que têm posições diferentes, e também porque qual é o momento para o fazer? Vamos falar de sexo com crianças da Primária? Com miúdos do Ciclo? Com adolescentes de 15 ou 16 anos? Quando é cedo demais? QUando é tarde demais? É complexo...

     
  • At 23 de fevereiro de 2007 às 19:03, Blogger Marco said…

    Carlos,

    A identificação de uma pessoa com uma causa (política, religiosa, social,...) pode assumir múltiplos aspectos. É algo que vai da simpatia à militância activa. E naturalmente que nestas diferentes formas de identificação também encontramos diferentes níveis de aprofundamento dos valores e ensinamentos da causa e diferentes forma de como esses se reflectem na vida de cada pessoa.

    Do meu conhecimento de duas comunidades religiosas (católica e baha’i) posso dizer que é utópico esperarmos que todos os crentes sejam muito aprofundados.

    Numa era globalizada em que culturas e religiões estão em contacto, algum sincretismo é inevitável. Não podemos esquecer que a fé é um acto pessoal. Claro que aqui corremos sempre o risco de encontrar um católico que acredita na reencarnação ou um baha’i que acredita no inferno.

    Há outro aspecto que também me parece importante realçar: a sociedade em que vivemos hoje é mais céptica e mais instruída do que era há duas ou três gerações atrás. Consequentemente as adesões a comunidades religiosas são, geralmente, processos mais conscientes do que eram há algumas gerações. E aqui o artigo da revista tem uma boa notícia para os católicos: em França as conversões ao catolicismo aumentaram nos últimos anos.

    Por esse motivo, penso que a revista não apresenta um "panorama desolador" mas um retrato social que de alguma forma ainda não tínhamos consciência. E nesse retrato encontramos coisas boas e coisas más.

     
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