domingo, janeiro 06, 2008
Guerras santas


Quando questionado sobre as razões da vitória, anteontem no Iowa, Mike Huckabee , o baptista, respondeu: “só há uma explicação e não é humana. É o mesmo poder que ajudou um rapaz com dois peixes e cinco pães a alimentar uma multidão de cinco mil pessoas”. (Alexandra Prado Coelho no Publico 5/I/08).

Depois da morte de Deus, que Nietzsche imaginou, não parece sobrevir (pelo menos ainda) a criação de novos valores.
Observa-se é o retorno a galope das religiões, por vezes no seu pior fanatismo. Do Islão ao Ocidente – acrescentaria o fanatismo europeu da “cultura do laicismo” com a sua “tolerância” selectiva, que de facto funciona muitas vezes como uma “religiosidade laica” (ver Polido Valente no mesmo jornal).
Mas nem num lado, nem noutro, posso concordar com a politização das religiões.
Aquilo que na América terá começado com Bush filho, não vai acabar e está para ficar.
Não posso concordar com a presença a religião-politica – e a reacção anti-religiosa laica, em Espanha e antes em França, é também isso - porque não esqueço os resultado; já vimos, desde a velha guerra civil europeia chamada dos “Trinta anos”, até aos ódios recentes da Irlanda, da Bósnia, da Índia, do Islão radical, já vimos por aí o potencial de morte que essas clivagens arrastam, quando aplicadas na política.

E para além da posição politica, a questão parece-me também e acima de tudo ética. Expressa-se na formulação do imperativo kantiano “Age de tal maneira que uses a Humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca como meio” (Fundamentação da Metafísica dos costumes).
É absolutamente intolerável a conversão de si, e do outro em puros meios, que é uma base do Totalitarismo.
Isto envolve o inaceitável de assimilar a religião a uma forma de governo, de identificar a religião com o papel desempenhado por um governante.
Jesus ensinou que o fim da nossa acção (que é amor) é o Outro (além do Pai), mas nunca as instituições humanas, como fins em si mesmas: dai a César o que é de César.
E quando o evangélico Huckabee, pretende que o mesmo poder que ajudou Jesus, veio dar-lhe a vitória no Iowa, sugere que Deus afasta os outros, e não fica longe do velho maniqueísmo entre puros e imundos.

cbs
posted by @ 1:37 da manhã  
20 Comments:
  • At 6 de janeiro de 2008 às 15:30, Blogger David Cameira said…

    “só há uma explicação e não é humana. É o mesmo poder que ajudou um rapaz com dois peixes e cinco pães a alimentar uma multidão de cinco mil pessoas”
    HO Haleluiah,

    JESUS is the one !!!

     
  • At 6 de janeiro de 2008 às 16:40, Blogger samuel said…

    É uma bela oportunidade para os estadunidenses continuarem a ser governados por um imbecil, uma forma simpática de não lhe chamar o que realmente é!

    Qualquer pessoa que invoca Deus para ajudar no resultado de um jogo de futebol, é um palerma!
    Quem o faz para interferir numa campanha eleitoral... é o quê?
    Hoje o "rapaz dos dois peixes e cinco pães", está a fazer um trabalho de merda, David. Não te interessam os milhões de estadunidenses que vivem na pobreza e sem terem sequer acesso a cuidados de saúde? Muitos deles frequentam certamente a "tua" igreja...

    Há realmente Haleluiahs muito "deslocados"!...

     
  • At 6 de janeiro de 2008 às 19:20, Blogger David Cameira said…

    Samuel,

    Para teu governo eu estou, desde meados do ano passado, desempregado graças a politica neo-liberal do governo do meu pais que nem é de esquerda nem assume, de vez, que é da direita mais extremada...

    Depois quanto a 2 minha igreja " ...olha amigo...já sofri tt ou mais ás mãos " dos da minha igreja " do que ás mãos " dos mundanos "

    Estive indeciso se havia de deixar passar ou de mandar a vboca, neste comentário, para atrair a fu´ria de todos os q fazem do ódioanti-americano e anti partido republicano a sua religião
    Como ves optei pelo picança, como prendinha de dia de reis.

    Mas sempre te digo o Gore só não continuou a impugnar as eleições por amor ao seu pais, senão ...aquilo demorava prai uns dois meses...mas até podia acontecer que quem iria governar, pelo menos até se realizarem novas eleições, era o " mr speaker"/a 2º figura do estado Norte-Americano

     
  • At 6 de janeiro de 2008 às 20:03, Blogger cbs said…

    David
    a questão fundamental é a invasão da politica pela religião.
    e isso sucede na democracia americana já sem pejo nenhum.
    o Huckabee chegou a perguntar para a geral se os mormons não são aqueles que acham Cristo irmão do Diabo. Depois pediu desculpa, ao que parece.

    e para mim, mais importante ainda, é a questão ética.
    Há duas formas de religião (estou a repetir-me no bergson) uma aberta que aceita o outro como diferente, e outra fechada (senão mesmo fanática) que quer obrigar o outro a ser o que eu quero... são os que acham que Deus está só do lado deles, iluminados, e rejeita os outros, os impuros.
    Quando chegamos a isto na politica temos o totalitarismo e o reino do medo.
    Na minha modesta opinião, misturar a fé com a politica para ganhar votos (ou seja por poder) é imoral e um desvio do Amor de Cristo.

    É por esta mesma razão que sendo religioso e temente a Deus, condeno em absoluto a forma radical do Islão.

    Faço-te no entanto a justiça de reconhecer que a tua vida não está fácil, mas não me parece que isso seja argumento para aceitares a mainpulação religiosa dos politicos.

    abraço

     
  • At 6 de janeiro de 2008 às 20:23, Blogger cbs said…

    "Hoje o "rapaz dos dois peixes e cinco pães", está a fazer um trabalho de merda, David"

    não pude deixar de reparar, caro Samuel.
    mas que raio de culpa tem Jesus pela iniquidade dos homens?
    muitos outros cristãos, receberam a mensagem Dele e tornaram-se justos. A escolha é humana, não é divina.

     
  • At 6 de janeiro de 2008 às 23:56, Blogger samuel said…

    Caro CBS

    É que nem me passaria pela (embora desviada :) ) cabeça, mandar essa boca a pensar na figura de Jesus, que não é preciso ser cristão para, pelo menos, respeitar.
    Referia-me exactamente à apropriação por parte do demagogo Huckabee, da figura do "rapaz com dois peixes e cinco pães", a que o oportunisticamente se quer equiparar.
    Muito diferente!

     
  • At 6 de janeiro de 2008 às 23:57, Blogger samuel said…

    David

    Acho que percebi...
    Era para picar... e picaste :)))

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 00:01, Blogger Pedro L. said…

    cbs

    Eu só ouvi falar no sr. Huckabee na sexta passada. Não o conheço, portanto. Mas não me parece que esteja ali o perigoso fanático religioso que queres pintar. Então se ninguém dava nada por ele, nem jornalistas, nem sondagens, e ele ganha a votação, ainda por cima contra um milionário que investiu forte (três milhões de contos, dizem), achas que o homem não pode falar em milagre? Obviamente que quer capitalizar os votos junto dos evangélicos - estamos numa batalha política. Mas não acho que se arrogue à posição de "enviado" de Deus. A mentalidade evangélica é assim. Um pouco como o Kaká, com a camisola "I belong to Jesus" depois de ganhar a Liga dos Campeões. Se Deus dá a vitória então que Ele esteja bem visível na festa (achas que o Kakà quer dizer que Deus esteve do seu lado e os outros eram uma cambada de infiéis?)
    Quanto ao mormon, trata-se de uma escorregadela política, mas compreensível tendo Huckabee formação religiosa. É que os mormons fazem-se passar por cristãos ortodoxos (no sentido de bíblicos), quando na verdade tem doutrinas profundamente anti-cristãs (os homens podem tornar-se deuses, por exemplo). Talvez tenha falado mais alto o Pastor do que o político...

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 01:58, Blogger Luís said…

    Pessoal estamos a falar de um estado com 3 milhões de habitantes num país com 300 milhões... Hold down your horses!

    Não admira que o Huckabee tenha ganho, os candidatos republicanos são todos péssimos (excepção feita ao Ron Paul mas esse é demasiado alternativo (e extremista in my humble opinion)). Fiquei mais surpreendido com o fraco resultado da Hillary Clinton (e sinceramente, desapontado). O Huckabee não ganha as eleições nacionais, you can bet on it...

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 10:46, Blogger cbs said…

    então estamos de acordo Samuel

    Pedro
    eu não conheço bem os caramelos, mas não creio (e não quiz dizer isso) que sejam fanáticos religiosos.
    São é politicos.
    O que critico é a utilização religiosa abusiva no estilo "nós é que somos a verdade!"
    O fanatismo vem depois, eles são só o isqueiro para atear...

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 12:39, Blogger CC said…

    Não interessa nada, mas fiquei muito contente com a vitória do Obama.

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 14:25, Blogger David Cameira said…

    " Quanto ao mormon, trata-se de uma escorregadela política, mas compreensível tendo Huckabee formação religiosa. É que os mormons fazem-se passar por cristãos ortodoxos (no sentido de bíblicos), quando na verdade tem doutrinas profundamente anti-cristãs (os homens podem tornar-se deuses, por exemplo). Talvez tenha falado mais alto o Pastor do que o político... "

    Valeu a pena vir aqui pasra ler esta.
    De facto eu até tinha pensado em pegar por ai...mas depois decidi, deliberadamente, nãoo fazer para não por as alminhas a espumar de raiva contra o meu fanatismo religioso
    Fiquei-me apenas pelo muito inócuo picanço " a quem faz do ódio anti americano e anti pertido republicano a sua religião "
    Pelo vistos nem assim me safei
    Mas fico contenmte q o Pedro Leal não tenha deixado escapar esta

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 14:41, Blogger João Leal said…

    cbs,

    A tua opinião é que não é possível Deus estar a 'puxar' pelo ex-pastor baptista? Poderá estar ou não. No que me diz respeito, deixo a vontade de Deus com Ele.

    Depois, a religião servir interesses corporativos, aspirações pessoais ou totalitárias não é, nem nunca foi (porque a religião sempre esteve ligada ao Poder) uma novidade. E isto porque as religiões sempre estiveram incluídas na sociedade e não fora delas. Olha para a génese da Igreja Católica ou para o espaço que foi dado ao protestantismo recém-nascido pelos principes do norte da Europa e percebes o que quero dizer.
    Esse galope, não me parece que esteja a aumentar. É um andamento regular de há dois mil anos. De um modo mais discreto ou não, ele sempre esteve lá.

    Não percebo o espanto, por parte de quem é católico...

     
  • At 7 de janeiro de 2008 às 17:29, Blogger cbs said…

    João
    não me espantei, só não concordo no caminho politico de juntar os poderes temporal e espiritual.
    Influencia sempre teve e terá, mas introduzi-la no argumentário politico aviva as clivagens. Não é muito diferente do apelo `s diferenças racistas ou sociológicas como a clivagem de classes. É perigoso e é uma mentira manipulatória.
    Aliás foi na guerra dos trinta anos, que citei, que os protestantes reformistas começaram a separar a Igreja (então romana) e o Estado. É nessa carnificina, e apartir da paz de Augsburgo, que radica o que veio a dar na separação entre o rei e o bispo;o Estado com o direito de soberania independente da autoridade pontifical.

    "A tua opinião é que não é possível Deus estar a 'puxar' pelo ex-pastor baptista? (...) No que me diz respeito, deixo a vontade de Deus com Ele"
    Não João, eu não pretendo saber como Deus julga. Aquilo que digo é outra coisa:
    Nunca argumentaria, e ainda menos politicamente, com adversários, afirmando que Deus está por mim. Como fez Constantino...
    Isso é arrogancia e presunção, faço-me compreender?

     
  • At 8 de janeiro de 2008 às 00:16, Blogger João Leal said…

    Sim, fizeste. Obrigado. Eu estou ainda para além do que dizes, repara.

     
  • At 8 de janeiro de 2008 às 10:54, Blogger cbs said…

    tens razão... reparo. Peço desculpa porque muitas vezes leio mal e sou autista, lol.

    mas, se te referes ao galope:
    "Esse galope, não me parece que esteja a aumentar. É um andamento regular de há dois mil anos. De um modo mais discreto ou não, ele sempre esteve lá."
    discordamos.
    É verdade que a religião sempre esteve presente.
    Mas também é verdade que, durante o século XX, com grande influencia do positivismo e dos avanços da ciencia, as religiões perderam o pé na cultura ocidental - lembra-te da propagada "morte de Deus" pelo frederico e depois pelos marxistas - e depois pela invasão da modernidade, um pouco por todo o mundo - lembra-te dos socialismos dos àrabes no meio do Islão, ou da União Indiana de Nehru no meio do Induísmo, ou do comunismo de Mao no meio do Budismo e do Taoísmo.

    Depois da queda do comunismo e da diluição das ideologias numa espécie de "democracia global" toda aldrabada, que é tudo e nada simultaneamente entrámos num relativismo moral que encaixa bem no Niilismo de que falou Nietzche.
    A reacção cada vez mais violenta vem das religiões, com destaque para o fundamentalismo islãmico, mas penso que também se nota na América uma crescente influencia da religião (e dos valores cristãos) na poltitica. Até o Chavez usa o cristianismo na sua revolução bolivariana. Isso nunca aconteceria no inicio do século XX, compara com a revolução cubana toda virada ao marxismo.
    Acho que existe um novo e crescente surto religioso na politica mundial.

     
  • At 9 de janeiro de 2008 às 13:04, Blogger João Leal said…

    Sim.
    Acho que percebo o que queres dizer. E, aliás, isso permite-me ver a luta anti-comunista de João Paulo II segundo uma outra perspectiva.
    Obrigado.

     
  • At 9 de janeiro de 2008 às 18:52, Blogger Nuno Fonseca said…

    Um anti-americanismo vindo da boca dum europeu vem, historicamente, duma barriga cheia, após duas guerras mundiais seguidas em que os nossos coiros laicos foram salvos pela nação que põe Deus na sua Constituição, e depois de 3 séculos dum ideal republicano-democrático de igualdade, liberdade e fraternidade humanas, que os franceses só souberem teorizar, mas que o ianque concretizou, sem hiatos, e em que persevera até este dia, e isto enquanto Portugal só o fez quatro constituições mais tarde, duas guerras coloniais e três revoluções depois.

    A lei do 'a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' não consiste em separar a Igreja do Estado, mas em manter o Estado fora da Igreja e sob a autoridade do Senhor dEla, pois nada há que não seja de Deus, e que temos por mero empréstimo, incluindo as moedas cunhadas pelo Império.

    Paz.

     
  • At 9 de janeiro de 2008 às 23:49, Blogger cbs said…

    "A lei do 'a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' não consiste em separar a Igreja do Estado, mas em manter o Estado fora da Igreja e sob a autoridade do Senhor dEla"
    Ou seja, achas tu que o estado deve sujeitar-se à Igreja.
    De Cristo, claro... não estás a concordar com a Teocracia islâmica presumo.
    Mas e então a qual das igrejas de Cristo se deveria sujeitar um estado, meu irmão... ao salão da Acácio Paiva não, espero.
    Mas fica a duvida :)

    Paz

     
  • At 10 de janeiro de 2008 às 01:08, Blogger Nuno Fonseca said…

    'Ou seja, achas tu que o estado deve sujeitar-se à Igreja'.

    Não. Quero dizer que: "A lei do 'a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' não consiste em separar a Igreja do Estado, mas em manter o Estado fora da Igreja e sob a autoridade do Senhor dela".

    Enquanto Igreja não somos uma instituição burocrática, mas o Corpo de Cristo, formado por todo o cristão verdadeiro, unido pelo Espírito Santo, e, também, sob tal Graça, existimos como o 'sal da terra' e a 'luz do mundo', e uma bênção de Deus para a 'res publica' humana, quando participamos nela, dialogando com o césar, de forma a que este faça a vontade de Cristo na Terra, por previlégio divino.

    Repara que Deus sempre será a prioridade do crente, e não devemos agir como se o Estado representasse uma autoridade superior, mesmo que isso implique conceder os nossos cadáveres à sentença dos césares, como foi o destino dos mártires, ou, num exemplo mais seco de sangue, como John Bunyan, que se recusou a assinar uma simples premissão estatal para pregar pela Grã-Bretanha, e preferiu o cárcere, apenas por objecção de consciência, a saber: a de obedecer ao césar antes do Cristo.

    Paz.

     
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