terça-feira, dezembro 04, 2007
Uma teoria da religião 2: a dinâmica mística
Henri Bergson a par de uma moral fechada, imutável e conservadora, vê uma outra moral aberta centrada na doação livre e não na obrigação. Esta ultima tem origem numa emoção original, o êxtase místico, um contacto com o Criador que transforma e faz responder a um apelo. As duas morais correspondem a tipos distintos de religião: a primeira origina uma religião estática, com o peso do mito e da magia; a segunda resulta numa religião dinâmica, supra-intelectual, que o filósofo define como Mística. É oposta à religião estática na origem, no modo de acção e no fim; parte do sobrenatural e propaga-se por uma atracção amorosa; separa o homem da Natureza prometendo-lhe uma condição diferente da espécie biológica.
O Bergsonismo é uma filosofia da percepção e assim, se Deus existe, deve ser experimentado, e não objecto de uma demonstração intelectual. Deus é um dado imediato da alma que experimentou uma ascese: o místico tem a intuição de Deus.

O misticismo antigo, tanto o platónico como o oriental, era de contemplação: não acreditava ainda na eficácia da acção humana. Mas a mística completa dos grandes santos cristãos é acção; para eles não é um ponto de chegada, mas o ponto de partida para a acção eficaz no mundo.

Porque crêem tê-Lo percepcionado, os grandes místicos não guardarão para si, tentarão dar testemunho da descoberta aos outros. Apelam para algo que existe latente em nós, querem passar o facho para que cada alma, por sua vez, se ilumine também; e mesmo quando não chegam aos outros, a sua força criadora tende a subtraí-los ao formalismo da religião estática, produzindo formas intermédias de religião.

O amor do santo pela humanidade é o próprio Amor de Deus: é um amor que não problematiza nem congela em mistérios, mas jubilosamente continua a obra de criação divina; armado com uma sensatez actuante e saturada de bondade, o santo é um apaixonado, e nunca um fanático.
Pode ser difícil verificar o que afirmam esses homens, mas podemos também notar a concordância dos seus testemunhos que, não transportando uma certeza definitiva, trazem contudo uma probabilidade – diferente, mas não tão longe assim, da “certeza” científica – que permite pelo menos justificar a esperança.
O acordo entre os místicos, não só os santos cristãos, como os de outras religiões, é “o sinal de uma identidade de intuições, que se pode explicar do modo mais simples, pela existência real do Ser com o qual crêem estar em comunicação”
(Deux Sources, p. 265).

A alma mística é o eixo da vida religiosa e a experiência mística fornece a única prova possível da existência de Deus: “Deus é Amor e é objecto de amor: aqui reside toda a Mística” (Deux Sources, pag. 270)
cbs

posted by @ 5:17 da tarde  
2 Comments:
  • At 5 de dezembro de 2007 às 13:34, Blogger João Leal said…

    obrigado pelos dois posts.
    muito útil.

     
  • At 5 de dezembro de 2007 às 18:46, Blogger cbs said…

    Convido-te a ler "Les deux sources", e de preferencia em francês. Bergson escreve lindamente, usando imagens literárias para passar ideias como Jesus faz nas parábolas.
    Ao contrário do estilo racional que é preciso mas árido, a imagem literária sugere, dá-nos aquilo que não se consegue definir, e que só pela intuição se pode apreender. Como Jesus fez...

     
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