quinta-feira, junho 07, 2007
ainda Corpus Christi (depois da missa)
«Por razões de ordem pessoal, tive recentemente de me ocupar de questões ligadas à assistência aos desfavorecidos e à protecção de populações em risco. Entre estas, podem contar-se os idosos (especialmente sozinhos e doentes), crianças abandonadas, filhos de pais doentes, refugiados, vítimas de violência doméstica, pobres, certos desempregados, doentes acamados, pessoas sem abrigo, viciados, drogados, hospitalizados com parentes ausentes, presos e outros. Num vasto universo de organizações civis e não-governamentais que se dedicam ao apoio e ao conforto destas pessoas, encontrei ou tomei conhecimento da existência de milhares de voluntários que gastam, por dia, mês ou ano, horas sem fim com aqueles que assistem. Além do tempo de trabalho, que não é pouco, gastam também recursos pessoais.

Mais do que tudo isso, o esforço e a energia destas pessoas, em certas circunstâncias, são impressionantes. Quando vemos grupos de rapazes e raparigas a recolher alegremente géneros nos supermercados, podemos sempre pensar que existe algo de lúdico associado à generosidade. Mas esses são momentos excepcionais. O essencial da assistência e da solidariedade é muito mais difícil. O contacto humano com acamados idosos ou doentes terminais exige resiliência moral. Trazer, durante a noite, alimentos e uma palavra aos toxicodependentes e aos sem-abrigo, frequentando os locais mais esquálidos e infectos das cidades, implica um difícil despojamento dos códigos de comportamento estabelecidos. Levar água, pão e medicamentos a crianças doentes e esfomeadas nas áreas miseráveis onde se desenrolam guerras civis de enorme crueldade pede sacrifício e capacidade para correr riscos de vida. Visitar, todas as semanas, por vezes todos os dias, presos ou doentes, sempre em ambientes de dor ou de degradação física e moral, não é um gesto ao alcance de todos. Esta assistência, voluntária, sem remuneração, recompensa ou visibilidade, é uma das reservas de decência na nossa sociedade muito mais interessada na mercadoria ou na exibição.

Ao estudar estas actividades, dei-me conta de que a maior parte das organizações e dos voluntários tem uma qualquer inspiração religiosa. São grupos e entidades ligados às Igrejas (em Portugal, sobretudo a católica), às ordens, às comunidades religiosas, às paróquias e a outras instituições. Notei algumas de inspiração laica, movidas pela mais simples solidariedade, mas são a minoria. Conheci mesmo voluntários ateus ou agnósticos que se dedicam a esta acção com os grupos religiosos, pois os consideram mais eficientes e mais genuínos. Fica-se com a impressão de que a segurança organizada e o reconhecimento do direito de todos à protecção não substituem, nem de longe, a assistência humana e pessoal ou, mais simplesmente, o "amor ao próximo" em nome de um deus. As vantagens, que são muitas, da cidadania laica e do Estado de protecção social não incluem a humanidade, a decência e a capacidade para resolver caso a caso as situações individuais. A solidariedade civil parece não substituir o sentimento religioso.»

António Barreto, Público, 3/6/2007

Carlos Cunha
posted by @ 1:44 da tarde  
12 Comments:
  • At 8 de junho de 2007 às 00:07, Blogger cbs said…

    "Fica-se com a impressão de que a segurança organizada e o reconhecimento do direito de todos à protecção não substituem, nem de longe, a assistência humana e pessoal ou, mais simplesmente, o "amor ao próximo" em nome de um deus"

    testemunho que impressiona, vindo se de quem vem... de cujo ateismo aliás duvido. Não é o primeiro ateu que me aparece à beira da religião.

     
  • At 8 de junho de 2007 às 19:18, Anonymous Anónimo said…

    O depoimento que abre também a porta uma perspectiva que julgo não ser do agrado do CC. A ideia de que o Estado "não tem jeito" para a solidariedade (pelo menos a de "rosto humano") e que deve ser deixado o máximo espaço aos que na sociedade, movidos por motivações profundas (quase sempre religiosas), conseguem desempenhar melhor a função.

    Pedro Leal

     
  • At 8 de junho de 2007 às 22:00, Blogger zazie said…

    Ó Pedro, esses eufemismos não querem dizer nada. Quem fala assim é o João Miranda.

    Deixar aberto está ele, o que falta em que o preencha. Ora!
    ahahaha

    Está visto que quem quer ajudar à borla e fazer caridade, não fica impedido de o fazer pelos restantes pagarem os impostos.

    O que acontece, e que a mulher do Barreto (A Mena) que não é comuna mas também não é ceguinha, sabe é que, se tirarmos o Estado daquilo onde não há tradição, não fica preenchido é por nada!

    Esse é que o grande drama. E ela até escreveu um excelente artigo acerca de um joven deficiente mental onde só usando da cunha conseguiu maneira de arranjar lar.

    Isso é que é grave e o paleio liberaloide costuma ser de um enorme cinismo.

    Porque dizem o oposto. Vendem a ideia que tempos um excelente Estado Social e que todos pagam os impostinhos para depois andar para aí muita solidariedade social a ser feita à custa dele, quando bastava deixar "espaço" à tal caridade privada.

    Esse detalhe é que é cretino. Porque aquilo que não tem tendência para se desenvolver, também não aparece de geração espontânea se se retirar o que é feito pelo Estado (que é mau, pouco, e ainda por cima, também funciona por cunha).

    O que o Pedro Leal podia ter aproveitado para se questionar é se aquelas medidas que ele também apoia como seja a de tirar vantagens de impostos e alguns apoios à própria Igreja Católica, à custa da tal pancada da laicização, contribuiu para o inverso- para aquilo que até pareceu estar a defender- mais apoio religioso e menos Estatal.

    Está claro que não contribuiu .Contribui apenas para mais um vazio.
    Que só por paranóia ideológica faz com que haja gente que o denfenda.

     
  • At 8 de junho de 2007 às 22:03, Blogger zazie said…

    A minha falta de pachorra com neo-liberalismos vem sempre bater aqui.

    Uma série de cinismos ideológicos, defendidos com palavras ocas, por mera papaguear.

    Sem terem sequer capacidade de pensar que objectivos é que visam.

    Se é para terem menos Estado para defenderem os bolsos dos contribuintes (em abstracto) ou se é para terem mais caridade, seja ela de que tipo for.

    Claro que a boquinha foi dada ao CC por mera reactiva. Tipo, estás tu para aqui a citar um ateu a defender a caridade religiosa mas nem estás a perceber que o gajo é liberal e que, na prática está a defender, é que o Estado também corte aqui.

    Uma treta de argumento camuflado porque ele tem a Filomena Mónica em casa a explicar que isso por cá não funciona.

     
  • At 8 de junho de 2007 às 22:05, Blogger zazie said…

    É claro que já me responderam com um contra-argumento brilhante:

    "áhhh... mas a Filomena Mónica não é liberal... é social democrata

    aahahahaha

    Agora se ela tem ou não tem razão nos casos que disse e que o Estado não funciona e do privado não chega para o substituir, isso está quieto. Não há cartilha que explique.

     
  • At 8 de junho de 2007 às 22:17, Blogger zazie said…

    Mas este comentário do Pedro Leal até merecia ser distinguido. Eu dava uma ajuda. Ia buscar outro no género, acerca do mesmo assunto, dado por aquele imbecil do Daniel Oliveira.

    O idiota, como é ateu militante, nem pensa. Aqui há tempo disse numa caixa de comentários do Blasfémias que era uam vergonha os benefícios que a "ICAR" (é assim que eles chamam) tinha. Pois até usavam a Santa Casa da Misericórdia para promover jogos de sorte e meterem ao bolso da padralhada.

    Está claro que fui ao site da Santa Casa e dei-lhe logo o nome dos boys todos do PS que fazem de padres a dirigi-la. E até lhe contei a história do como costuma transitar os negócios de exclusividade de fornecimento de bens entre eles.

    Fez figura de urso. Nem sabia que é Estado (governo, e na mão dos que entram, quando os outros saem).

     
  • At 8 de junho de 2007 às 22:46, Anonymous leitor_deveras_interessado said…

    Zazie
    Vá um pouco mais devagar, que está a deixar de fazer sentido.
    A sua brilhante tirada sobre o D.Oliveira "O idiota, como é ateu militante, nem pensa" aplica-se só a ele ou é de carácter geral?
    Ele não pensa por ser idiota?
    Por ser ateu?
    Por ser militante?
    Deixando por agora os idiotas, os ateus de uma maneira geral, não pensam?
    E os militantes?
    Você própria sente-se bem?
    Está a pensar?
    Ainda se lembra de que é que estamos a falar?

     
  • At 8 de junho de 2007 às 23:33, Blogger zazie said…

    Ele não pensa, ponto final. Está aí a resposta no texto. Um sujeito que é militante do BE e diz uma bacorada desta só o pode fazer por ser ateu militante e ficar bloqueado.

    Tem dúvidas de quê? que ele seja ateu militante ou que tenha dito esta bacorada?

     
  • At 8 de junho de 2007 às 23:35, Blogger zazie said…

    Este comentário foi removido pelo autor.

     
  • At 8 de junho de 2007 às 23:35, Blogger zazie said…

    "ateu militante" é uma expressão que não admite separação.

    Não tem nada a ver com o facto de ser militante político.

    É militante pelo ateísmo. Expressão em sentido figurado. São aqueles que fazem do ateísmo uma ideologia.

    Têm em comum serem adoradores do bode esperança

    ":OP

     
  • At 10 de junho de 2007 às 11:47, Blogger Henrique Dória said…

    Menina Zazie: o bode esperança está a chegar. Chama-se TELÓMERO. Esses científicos triunfarão aí onde falharam os deuses e os políticos: podem dar-nos uma vida de mil anos.
    O problema é a gente chatear-se de viver tanto.É então que entra CIORAN.

     
  • At 28 de abril de 2016 às 03:08, Blogger dong dong23 said…

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