segunda-feira, novembro 27, 2006
Para além dos aperitivos
Este ano comemora-se o centenário do movimento pentecostal moderno. Foi em 1906 que, num bairro pobre de Los Angeles, William Seymour, um pregador negro, provocaria aquilo que ficou conhecido como o reavivamento da Rua Azusa. Não posso deixar de me lamentar, com o típico paroquial umbiguismo que me caracteriza, que ninguém neste país dê pela efeméride. Dirão que é coisa de agenda sub-religiosa sem impacto social. E terei de explicar que não, que o mundo Ocidental como o conhecemos foi transformado pelo movimento pentecostal moderno.
O pentecostalismo é a família cristã que registou maior movimento no século passado. Acima de católicos e qualquer grupo específico protestante. Dos Estados Unidos rapidamente se espalhou a todo o mundo, avassalando a África e América Latina e chegando mesmo à alguma Ásia. Permanece nos nossos dias como o grupo religioso em maior crescimento. Forget Islam.
O pentecostalismo tornou-se o melhor cristianismo pós-moderno. Exaustos da batalha do século XIX entre o pensamento científico e a apologética religiosa, os crentes já não se ulceravam com as discrepâncias entre os evangelhos. O que queriam mesmo era sentir no meio do seu previsível quotidiano uma sombra mínima daqueles relatos. O pentecostalismo devolveu o sobrenatural a um cristianismo massacrado por Darwin. Facilmente se abdica de pormenores hermenêuticos quando se pode falar na língua dos anjos. Naturalmente se abdica de rigores medicinais quando o pastor nos pode curar em pleno culto. Consequentemente se esquece o mundo quando Jesus está para chegar muito breve. O pentecostalismo é o mais inesperado kierkegaardianismo popular.
Claro que sobretudo à Europa custa que tantos brancos tenham sido seduzidos por uma religião de pretos. Claro que sobretudo à Academia Teológica custa que tantas igrejas tenham preferido o êxtase à doutrina. Claro que sobretudo à cristandade aristocrata custa que a fé cresça à custa das classes baixas. Mas todos têm de engolir o vigor carismático. É dele o século XX religioso.
Só uma razão apócrifa que pessoalmente me prova a importância do pentecostalismo muito para além das suas fronteiras denominacionais. Sem pentecostalismo não existiria rock'n'roll. Para que o rock fosse a música do diabo foi preciso que o pentecostalismo o tornasse muitos anos antes o louvor a Deus (a lição é simples: o diabo só copia, não inventa nada. As pessoas que se arrepiam com Diamanda Gálas nunca estiveram num culto pentecostal. Nunca ouviram alguém falar em línguas, nunca viram os corpos no chão em convulsões, nunca se juntaram ao caudal colectivo das lágrimas). A música popular é um pentecostalismo sem divino. A próxima vez que passaram por uma Assembleia de Deus baixem a vossa cabeça impenitente em gratidão. O sexo e as drogas permanecerão sempre como meros aperitivos.

Tiago Cavaco
posted by @ 9:01 da tarde  
9 Comments:
  • At 28 de novembro de 2006 às 00:50, Blogger Luís Aguiar Santos said…

    A genica dos pentecostais notou-se na rapidez com que cá chegaram. Enquanto outros demoraram séculos, eles, aparecidos em 1906, já em 1913 por cá andavam. Rocking the gospel...

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 13:13, Blogger David Cameira said…

    Pois é , custa muito, principalmente á classe dominnte do meio evangelico que os irmãos pentes , tipicamrnte a escoria e a ralé social, crescam mais q eles proprios

    Se os Baptistas sao a ala esquerda da reforma os pentecostais sao a extrema esquerda

    LOLLLLL

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 13:55, Blogger trentonalingua said…

    Boa pertinente.
    Realmente é um pouco estranho o quase segredo em que está a passar o centenário do maior (em termos de velocidade de crescimento) movimento religioso da história da Humanidade. Provavelemnte isso tem a ver com pouca atenção que os próprios pentecostais dão a coisas profanas como a História... :)
    E é importante lembrar que este é um movimento transversal - atingiu igrejas fora do protestantismo, como a Igreja de Roma.

    Pedro Leal

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 19:23, Blogger trentonalingua said…

    Concordo. De facto é muito estranho.

    Paulo Ribeiro

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 21:34, Blogger trentonalingua said…

    Dúvido muito que tenha sido o maior (em termos de velocidade de crescimento) movimento religioso da história da Humanidade.

    Rúben Baptista de Oliveira

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 23:18, Anonymous Anónimo said…

    Gracias ao Tiago pelo destaque ... incrivelmente, a comemoração do centenário passou-me completamente despercebida . Na qualidade de pentecostal da AD, garanto-vos que sentir o espírito santo dentro de nós supera qualquer experiência por mais arrojada que seja... se por um lado é libertadora, por outro lado une-nos enquanto igreja, pela cumplicidade da experiência.

    DVA

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 23:36, Anonymous Anónimo said…

    Parabens pelo texto o meu AD "ego foi recreado" É verdade que publicamente a efeméride não foi muito publicitada (estamos tambem a perder qualidades)mas foi tema nas Convenções deste ano, bem como na n/ revista NA

     
  • At 28 de novembro de 2006 às 23:50, Anonymous Anónimo said…

    Deixem-me ressuscitar uma dessas qualidades: Estão desde já convidados para a Coferência Mundial das Assembleias de Deus em 2008 na cidade de Lisboa, ou se não tiverem a paciência necessária podem, quando passarem por uma Assembleia de Deus em vez de "baixarem a vossa cabeça em impenitente gratidão" entrarem e levantarem a cabeça cheios do Espirito Santo para os céus"

     
  • At 29 de novembro de 2006 às 16:18, Blogger Luís Aguiar Santos said…

    E a edição comemorativa das Novas de Alegria, arranja-se aqui para os membros do burgo?

     
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