sexta-feira, novembro 10, 2006
Sim Pedro, devemos celebrar o pecado
Devemos celebrar o pecado porque no meio evangélico* ele transubstanciou-se oportunamente em mero adversário nos matraquilhos. Um opositor do lado oposto da mesa, ou, visto o assunto de um modo mais colorido, um predicado que apimenta a nossa narrativa pré-conversão.
O Paulo Ribeiro tem razão quando sugere que os protestantes evangélicos se ausentam da "condição de toda a humanidade", de "regular sinner(s)", de "banalíssimo(s) pecador(es)". O problema do puritanismo, da imprescindibilidade da boa conduta, é que em termos práticos regressa às indulgências de Roma.
"Pecar muito para que a graça abunde"? Falamos de um grande pão de Mafra e não das migalhas que nutrem os estômagos anoréticos da cristandade contemporânea. A sua magreza é tal que esta passagem bíblica é usada como se o pecado fosse um vício difícil de abandonar (valia a pena mencionar o contexto em que o Apóstolo se encontra quando o afirma - Paulo não pregava contra os maus hábitos dos receptores da carta, falava-lhes sim de uma fé que sobrepujava a metódica lei mosaica). Que os cristãos deixem de roer as unhas mas que não se orgulhem de tão pouco.
Em jeito de máxima para estudantes de liceu com efeitos de inspiração à praxis e pouco rigor académico: o pecado somos nós. E como andamos tão esquecidos, vale a pena exagerar. Festejar teologicamente a desgraça de Haggard. Embebedarmo-nos em shots de prantos alheios - a sujeira do Gólgota continua a servir para alguma coisa.

* Entre os católicos não sei se ainda é um conceito religioso aceitável à luz dos nossos dias soalheiros.

Tiago Cavaco
posted by @ 2:37 da tarde  
10 Comments:
  • At 10 de novembro de 2006 às 15:35, Blogger JOINCANTO said…

    "Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante? De modo nenhum! Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?"

    "o nosso velho homem foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não sirvamos mais ao pecado."

    "considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;"

    "Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Pois quê? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum!"

    Romanos 6:1,2,6,11,12,14,15

     
  • At 10 de novembro de 2006 às 16:06, Blogger trentonalingua said…

    Ou a prova como às vezes recitar a Bíblia é a pior injustiça que lhe pode ser feita.

    Tiago Cavaco.

     
  • At 10 de novembro de 2006 às 16:58, Blogger JOINCANTO said…

    Ou a prova como às vezes os nossos argumentos e "teologias" contrariam a própria Bíblia.

     
  • At 10 de novembro de 2006 às 17:29, Blogger trentonalingua said…

    Acho muito bem o arremesso do joincanto. Como ele nunca pecou está no seu direito àquela pedrada.

     
  • At 10 de novembro de 2006 às 19:14, Blogger JOINCANTO said…

    “Acho muito bem o comentário do caro anónimo (advogado de defesa ao serviço da Joint-venture Católico-Protestante)”, said Joincanto (também conhecido por Jorge Oliveira) desviando-se do brutal pedregulho arremessado pelo antinómico anónimo.

     
  • At 11 de novembro de 2006 às 01:13, Blogger trentonalingua said…

    Ok, somos todos "regular sinners" Mas, pelo menos, mostremos algum inconformismo com a situação.
    Quanto à conduta puritana (acho que não sou puritano, mas, como baptista, admito uma costela) não se pode comparar às indulgências de Roma. Fazem-se "boas obras" para agradar a Deus, não para nos salvarmos.

     
  • At 11 de novembro de 2006 às 01:14, Blogger trentonalingua said…

    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

     
  • At 11 de novembro de 2006 às 01:21, Blogger trentonalingua said…

    O comentário anterior é meu.

    Pedro Leal

     
  • At 11 de novembro de 2006 às 10:22, Blogger Tiago Cavaco said…

    Caro Joincanto,
    triste ficaria eu se os meus argumentos fossem ao encontro da teu princípio de não-contradição a Bíblia. Por natureza, a minha "teologia" (como a referes) deve permenecer em choque com o sacudir de passagens bíblicas da tua. Esse é o sinal que permaneço onde devo.
    Um abraço.

    Pedro,
    o "inconformismo com a situação" é uma espécie de número suplementar da santidade? I stand by my words. As boas obras funcionam como as indulgências romanas. Uma espécie de "Deus salvou-me por graça mas mantenho-me atinado, não vá o Diabo tecê-las".
    Um abraço.

     
  • At 11 de novembro de 2006 às 12:59, Blogger trentonalingua said…

    Chamaria aqui o grande poeta:

    "Pior do que uma sexualidade indefinida é uma espiritualidade mal compreendida."

     
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