quinta-feira, julho 29, 2010
Damásio
As frases da Bluesmile: “A consciência humana (a consciência de si, o Self, ou o sentimento de si, de que fala o Damásio), assim como todas as experiências humanas subjectivas - perceptivas, sensoriais e místicas - nada têm de imaterial ou metafísico. Estão subordinados às leis da Física (mais precisamente da biofisiologia e da neuroquímica do nosso sistema nervosos central)” obrigaram-me a ouvir António Damásio. Mas para compreender a sua investigação, um termo fundamental a definir é “imagem”. Diz o cientista:
Quando utilizo o termo imagem, quero sempre significar imagem mental. Padrão mental é um sinónimo de imagem. Não utilizo a palavra imagem para me referir ao padrão de actividades neurais que pode ser encontrado, através dos actuais métodos da neurociência, nos córtices sensoriais quando eles estão activos – por exemplo, nos córtices auditivos em correspondência com uma percepção auditiva; ou nos córtices visuais em correspondência com uma percepção visual. Quando me refiro ao aspecto neural deste processo uso termos como padrão neural ou mapa.

Portanto, os cientistas recorrem a um termo - que antes usaram os filósofos; Bergson, nos Dados Imediatos da Consciência, por exemplo – fica logo claro que existe uma diferença essencial entre o que são padrões neurais de células, que podemos observar objectivamente num cérebro, e as representações imagéticas a que apenas o próprio pode aceder, mas nunca um terceiro. Os padrões neurais têm um carácter material, enquanto os padrões mentais têm um carácter imaterial, isto é, são imagens mentais, de acesso directo e pessoal.
E Damásio prossegue:
As imagens provêm da actividade de cérebros e esses cérebros fazem parte de organismos vivos que interagem com ambientes físicos, biológicos e sociais. Deste modo, as imagens surgem de padrões neurais (ou de mapas neurais), formados em populações de células nervosas (ou neurónios), que constituem circuitos ou redes.
Há, porém, um considerável mistério no que respeita à forma como as imagens emergem dos padrões neurais. O modo como um padrão neural se torna numa imagem é um problema que a neurobiologia ainda não resolveu.
Muitos de nós, neurocientistas, somos guiados por um objectivo e por uma esperança: encontrar, finalmente uma explicação abrangente para como o tipo de padrão neural que conseguimos presentemente descrever com as técnicas da neurobiologia, desde as de nível molecular às do nível dos sistemas, se transforma em imagem multidimensional, integrada no espaço e no tempo, de que temos a experiencia neste preciso momento. Um dia virá em que conseguiremos explicar satisfatoriamente todos os passos que intervêm desde o padrão neural até à imagem, mas esse dia ainda não chegou.
Quando digo que as imagens dependem de e surgem a partir de padrões neurais ou mapas neurais, em vez de dizer que as imagens são padrões ou mapas neurais, não estou a escorregar para um dualismo descuidado. Não estou a dizer que há um padrão neural por um lado e um cogito não material por outro. Estou simplesmente a dizer que ainda não conseguimos caracterizar todos os fenómenos biológicos que têm lugar entre:
a) A nossa descrição actual dum padrão neural, a vários níveis biológicos
b) A nossa experiencia da imagem que tem origem na actividade do mapa neural.
Existe uma lacuna entre o nosso conhecimento dos fenómenos neurais, a nível molecular, celular e de sistema, por um lado e, por outro, a imagem mental cuja génese queremos compreender. Existe uma lacuna que deverá ser preenchida por fenómenos físicos ainda não identificados, mas presumivelmente identificáveis. A extensão da lacuna e a possibilidade do seu preenchimento no futuro constituem, é claro, assuntos para debate. Seja como for, quero deixar bem claro que considero os padrões neurais como os progenitores das entidades biológicas a que chamo imagens. (Mistérios e lacunas do conhecimento na produção de imagens in António Damásio, O sentimento de Si)

Portanto, é aqui reconhecida a lacuna entre aquilo que chamamos “padrão neural”, agrupamentos de células de carácter objectivo e material, e aquilo que designamos (cientistas e filósofos, repito) por “imagens mentais”, representações integradas no espaço-tempo da consciência, aquilo que se designa por consciência alargada (por diferenciação com a consciência nuclear). Nestes últimos objectos (imagens) continuamos no escuro, cheios de uma esperança que nos guia. A ciência “acredita” que chegará o dia em que esse caminho, entre a célula e a imagem, será explicado passo a passo. Por agora, fica a “esperança”!

Chamo a atenção para que, a par da esperança (induzida por sucessos) há uma repetição da atitude “dogmática” que atravessa a ciência, desde a física clássica até à física quântica. Digo dogmática, porque, se bem que fundamentada (não é cega nem surda, como o dogma religioso) ainda não recolheu a humildade suficiente (que os erros igualmente deviam induzir) para deixar de ter certezas em relação a explicações futuras – quando Damásio afirma por exemplo, que “as imagens dependem de e surgem a partir de padrões neurais” – que nem sequer serão do domínio do provável, mas mais do desconhecido. E já deviam ter aprendido que, como disse o Hamlet “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”.
Mas também quero deixar explícito, que não me repugna, enquanto religioso e cristão, aceitar que o caminho será um dia explicado por fenómenos subordinados às leis da Física, da biofisiologia e da neuroquímica do nosso sistema nervosos central. Mesmo em termos religiosos, nós não existimos para acreditar, mas para conhecer, e uma coisa não impede a outra, como desde sempre fizeram os pensadores cristãos, mantendo a ligação entre fé e razão. Contudo a própria Ciência reconhece a existência de singularidades em que as leis da Física não se aplicam – buracos negros, por exemplo – e, ao menos provisoriamente, a imaterialidade das representações cerebrais, deixam as coisas em aberto.
Só que o problema em termos existenciais não fica aqui. Mesmo que as ligações se façam e expliquem, mantém-se o abismo que separa desde sempre, a materialidade do universo, dessa outra realidade que consciencializamos no fundo de cada humano. A diferença subtil, mas clara entre “ver” as coisas – vídeo – e “sentir que vemos” – videor – do binómio cartesiano videre videor. A investigação neuro-biológica “vê” o onde (localização cerebral) e o como (descrição do processo). Faltará o último porquê, que é objecto, não da descrição neurológica, mas da investigação fenomenológica: o fenómeno enquanto puro aparecer no mundo.
cbs

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posted by @ 6:07 da tarde   22 comments
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